Arquitetos da Serra Gaúcha representam o Rio Grande do Sul na primeira edição da Bienal de Arquitetura Brasileira, que ocorre até o dia 30 de abril, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. Os escritórios Matte Arquitetura e Studio Carbono, de Bento Gonçalves (RS), assinam o projeto do pavilhão dedicado ao bioma Pampa, com 100 metros quadrados, selecionado para integrar o Pavilhão Brasil ao lado de ambientes que representam Amazônia, Cerrado, Mata Atlântica, Caatinga e Pantanal. “Desenvolvemos o projeto acreditando na força do que ele carrega: a possibilidade de revelar o modo de morar e de viver, os costumes e a tradição gaúcha”, afirma Marina Ferrari do Studio Carbono.
Batizado de “Querência Amada”, o espaço propõe uma imersão sensorial e afetiva na cultura do Rio Grande do Sul. A expressão, típica do vocabulário local, traduz o sentimento de pertencimento e a ideia de lar nas famílias gaúchas. “É também uma homenagem aos 50 anos da música ‘Querência Amada’, de Teixeirinha, um dos maiores artistas da cultura gaúcha. A canção traz o pertencimento como tema central e emociona gerações”, explica Lucas Matte, da Matte Arquitetura. “Querência Amada” é um projeto sobre pertencimento, identidade e o jeito gaúcho de viver. Inspirado na cultura do Rio Grande do Sul, o projeto entende a arquitetura como instrumento de continuidade cultural, onde a cozinha é gesto de acolhimento, a mesa é lugar de união, a lareira é o coração simbólico da casa e o chimarrão, ritual de encontro.
Cozinha como ponto de encontro
O projeto parte da cozinha como núcleo central para construir a narrativa do ambiente — lugar de encontro, partilha e convivência. A proposta busca representar a casa não apenas como espaço físico, mas como extensão das vivências e das relações. “Porque sabemos que é ali, ao redor da mesa, que as coisas mais importantes acontecem. Um espaço que nasce do encontro”, conceituam.
O espaço também se inspira na figura de um gaúcho contemporâneo, representado pelo chef Rodrigo Bellora, chef, agricultor e pesquisador do ingrediente. “Bellora faz da cozinha a tradução da sua arte, valorizando ingredientes simples por meio de técnica e sensibilidade. Isso também orientou nossas escolhas arquitetônicas”, descreve Jovani Bortoncello, do Studio Carbono. Os arquitetos explicam que, ao percorrer o estado com pesquisa gastronômica e cultural, Bellora personifica o gaúcho contemporâneo: “com o campo na alma, o fogo no coração e a tradição transformada em arte”.
Na composição do ambiente, os arquitetos buscaram referências do universo profissional, apresentando uma estética mais industrial, mas reinterpretada para o morar. Eles explicam que a melanina utilizada como acabamento faz referência ao inox, como uma leitura mais leve e acolhedora desse material, equilibrando e trazendo conforto. Para eles, é uma cozinha que combina funcionalidade no uso e, ao mesmo tempo, mantém o calor necessário para receber.

Materialidade: elementos tradicionais
Com referências nas paisagens do Rio Grande do Sul e na cultura dos pampas, o espaço reinterpreta elementos tradicionais sob uma abordagem contemporânea. Com materiais naturais, como terra, madeira, pedra, lã, couro e linho, tons terrosos e uma atmosfera que equilibra rusticidade e sofisticação, o projeto cria uma experiência sensorial que conecta tradição e contemporaneidade, combinando elementos brutos com acabamento refinado. “Os materiais evocam a terra como origem, reconectando o espaço às primeiras casas da região. A textura das paredes remete ao barro; o ladrilho terroso lembra antigos porões onde se guardavam alimentos e memórias; as pedras soltas fazem referência às fundações que marcaram a história construtiva do estado”, explicam.
O resultado é uma atmosfera que equilibra rusticidade e sofisticação, valorizando rituais cotidianos e o convívio familiar. “O nosso objetivo é mostrar para o Brasil a nossa forma de viver. Cada hora dedicada foi um gesto de cuidado que se converteu em um resultado do qual nos orgulhamos”, destaca Verônica Falcade, da Matte Arquitetura.
O Pavilhão Brasil da BAB reúne 27 espaços, representantivos de cada unidade da federação. A exposição estará em cartaz no Pavilhão das Culturas Brasileiras (PACUBRA), no Parque Ibirapuera, até o dia 30 de abril, com ingressos à venda no site oficial do evento.
Fotos: Adriano Pacelli | Divulgação
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