O espaço representativo do Paraná na Bienal de Arquitetura Brasileira (BAB) é assinado pelo escritório curitibano Boscardin Corsi, comandado por Ana Carolina Boscardin e Edgard Corsi. A dupla apresenta uma casa completa, propondo uma leitura contemporânea do morar paranaense a partir da herança modernista, da memória e de uma arquitetura pensada para atravessar o tempo. Batizado de “A Casa que Dança”, este é um dos 27 espaços, de 100 metros quadrados cada, montados no Pavilhão das Culturas Brasileiras (PACUBRA), no Parque Ibirapuera, em São Paulo, representativos de cada unidade da federação. A exposição estará em cartaz até o dia 30 de abril, com ingressos à venda no site oficial do evento.
Os arquitetos contam que o nome do projeto vem de um verso de Paulo Leminski, escritor e poeta curitibano: “Tudo dança hospedado numa casa em mudança”. A frase conduz a narrativa do ambiente e sintetiza sua essência. A casa se transforma sem perder o que a sustenta. Em um tempo acelerado, o projeto propõe uma arquitetura capaz de receber novas camadas e preservar sua força afetiva e cultural. “Nossa intenção foi revisitar uma arquitetura muito presente no imaginário paranaense sem tratá la como memória estática. A casa muda com o tempo, mas segue capaz de acolher, reunir e refletir a vida de quem passa por ela”, afirmam Ana Carolina Boscardin e Edgard Corsi.
A inspiração vem de residências disseminadas pelo estado a partir dos anos 1950, marcadas pela clareza formal, pela integração com a paisagem e por uma elegância contida. Esse imaginário dialoga com a produção do modernismo paranaense, representado por nomes como Vilanova Artigas e Lolô Cornelsen, cujas obras influenciam a concepção do projeto.
Em A Casa que Dança, a linguagem da arquitetura se estende ao mobiliário, ao desenho autoral e à arte. Entre os destaques do projeto estão a mesa e os puxadores desenhados pelo próprio escritório, peças que traduzem essa visão de forma sensível e precisa. A eles se soma o banco, reforçando a unidade do conjunto e a ideia de uma arquitetura que se expressa em diferentes escalas. Inspirada na obra de Poty Lazzarotto, a intervenção em azulejos assinada por Lenzi introduz cor ao espaço e aquece a composição. Já o banco Toinoinoin, de Jaime Lerner, incorpora ao ambiente uma memória afetiva ligada ao design e à identidade paranaense.
Arte, design e parcerias convergem, assim, a partir de uma mesma origem: o Paraná. Essa escolha reforça o enraizamento do projeto no território e evidencia uma rede criativa local que atravessa diferentes linguagens, ampliando o sentido de pertencimento e continuidade. “Existe um interesse genuíno em pensar a continuidade, tanto na arquitetura quanto nos materiais e nas peças que compõem o ambiente. São escolhas que falam de permanência, mas sem rigidez”, completam os arquitetos.
Percurso entre arquitetura e arte
A experiência de A Casa que Dança se revela aos poucos, como acontece nas casas que guardam história. A planta preserva elementos centrais da construção original e organiza os espaços com fluidez, valorizando transições, enquadramentos e respiros. O percurso foi desenhado para que arquitetura, arte e mobiliário convivam com naturalidade, em uma atmosfera que alterna precisão e acolhimento.
A varanda se destaca como um dos pontos mais marcantes do projeto, com piso de concreto pigmentado em vermelho, que evoca a terra fértil do Paraná e estabelece uma transição calorosa entre interior e exterior. Pisos em concreto e madeira, paredes de tijolos pintados de branco e a estrutura aparente preservam a memória da casa modernista, criando uma base sólida para o presente.
No centro da casa, o núcleo que reúne cozinha, lavanderia e lavabo. A cozinha embutida em inox imprime precisão e densidade material ao conjunto, em contraste com a memória tátil dos pisos, tijolos e madeiras. O inox introduz contraste, mas não com a expressão de ruptura, mas como parte essencial da narrativa, com o objetivo de evidenciar o encontro entre o antigo e o novo, traduzindo o modo de viver atual de seus moradores. O lavabo, anexo a esse núcleo, ganha força plástica com as paredes em azul marinho na parte externa e com a intervenção de azulejos em seu interior. A suíte master foi desenhada para ganhar privacidade e incorporar um espaço íntimo de leitura e pesquisa.
Em todo o espaço,, peças autorais e materiais locais ajudam a costurar essa narrativa. A divisória em Mármore Paraná atua como elemento arquitetônico e escultórico. O banco executado com sobras de mármore das jazidas do estado reafirma a relação entre permanência e reaproveitamento. Em conjunto, os arquitetos expressam uma visão de morar que valoriza memória e continuidade.
Fotos: Felipe Petrovsky | Divulgação





