No projeto do condomínio residencial Cap. 1 Três Figueiras, o escritório gaúcho OSPA Architecture partiu da observação criteriosa do lugar, o bairro de mesmo nome em Porto Alegre (RS). A proposta foi a de casas suspensas que respeitam a topografia, valorizam a vegetação e ampliam a relação entre arquitetura, paisagem e vida urbana. Como premissa, todas as unidades foram dispostas de frente no terreno, garantindo as orientações leste e oeste, além de visuais para a notável árvore que dá nome ao bairro.
A edificação segue o conceito de casas suspensas que, com unidades sobrepostas de forma escalonada que se distanciam mais da rua a cada pavimento, integra-se a seu terreno em aclive, seguindo sua topografia. Além de harmonizar visualmente o edifício com seu entorno, essa concepção possibilitou que a área privativa de vendas superasse em 30% o potencial permitido para o lote. “O zoneamento estabelecia como altura máxima para o empreendimento 9 metros. Dessa forma, a ideia foi seguir a orientação do terreno, dotando as unidades de amplos terraços frontais que, por serem descobertos, não são contabilizados como área construída, como prevê a legislação urbanística local”, explica Rodrigo Milani, sócio do OSPA Architecture e manager do projeto. “Dessa forma, a metragem total superou sensivelmente o potencial construtivo estabelecido para o lote”, complementa.
A volumetria do projeto é fruto da ideia de seguir o padrão geométrico do entorno: os quatro lotes existentes são base para quatro blocos, cada qual com quatro apartamentos escalonados. Tal escalonamento não é formalista: a edição do prisma original reduz o impacto da edificação na região, afastando-a da via pública a cada pavimento, além de acompanhar a topografia original do terreno e gerar terraços privativos com piscinas lineares. Entre os pavimentos, ora a frente do apartamento é paralela à via em frente, ora perpendicular à divisa lateral, criando dinamismo para os volumes.
” A ideia foi seguir a orientação do terreno,
dotando as unidades de amplos terraços frontais.”
Arq. Rodrigo Milani
Permeabilidade visual
Os terraços são peça importante do projeto. Segundo a legislação local, não são contabilizados como área construída, o que aumenta o potencial de área privativa para venda. Visando gerar maior privacidade entre as unidades e reforçar o conceito de casas suspensas, cada apartamento ganha uma bandeja com seção “U” em concreto aparente, coroada na sua frente pela piscina revestida em pedra Hijau. A disposição dos ambientes na planta de cada unidade busca posicionar áreas sociais em frente ao terraço, o que, juntamente com as amplas esquadrias piso-teto, borra as delimitações entre áreas externas e internas, conforme a vontade do morador.
O tamanho das varandas do edifício também estimula moradores a ter vegetação nessas áreas – o que favorece a permeabilidade do solo, além de melhorar a qualidade do ar e do visual da região – e frequentá-las, o que aumenta o número de “olhos da rua”, elevando a segurança na região. “Essa tese, que é muito empírica, foi apresentada pela primeira vez por Jane Jacobs”, diz Rodrigo Milani referindo-se à urbanista norte-americana que, no livro “Morte e Vida das Grandes Cidades”, lançado em 1961, apresentou o conceito “olhos da rua”. De acordo com Jane Jacobs, em áreas urbanas, a frequência de pessoas que trafegam ou observam as vias acaba por exercer uma vigilância voluntária ou não que constrange a ação de criminosos. “Esse conceito é referência ainda hoje tanto na formulação de políticas públicas de segurança quanto em planejamento urbanístico”, diz o arquiteto. Com o mesmo intuito, a fachada do edifício é envidraçada e revestida por painéis de aço corten perfurados, o que possibilita a comunicação visual de dentro para fora e vice-versa, integrando o condomínio ainda mais à via pública.

Em atenção à premissa de um urbanismo focado no pedestre e em uma cidade mais permeável visualmente, as áreas condominiais são propostas na fachada do pavimento térreo. Evitando criar um salão de festas convencional, a edificação ganha uma área que, no dia a dia, é entendida como um lounge, uma extensão do hall de acesso. Conforme a necessidade, divisórias retráteis acústicas são fechadas, garantindo o isolamento para o uso privativo. Além do lounge, uma academia, um spa, saunas seca e úmida e uma sala de massagem complementam as amenidades do empreendimento. Atravessando este pavimento, é disposta uma galeria linear com obras de arte de curadoria internacional.
O paisagismo está presente em toda a parte. Os mais de 50 metros de testada são utilizados para um jardim escalonado que faz a transição entre a calçada pública e as áreas condominiais do projeto. Cada terraço recebe um conjunto de floreiras, além de ser incentivada a arborização particular. Fazendo fundo à Figueira, um jardim vertical se estende por toda a divisa dos fundos, sendo visto pelas suítes de todas as unidades. Os apartamentos do segundo andar possuem gardens no fundo, cada qual com sua personalização conforme demanda do morador.
O projeto do Cap.1 Três Figueiras conquistou o Prêmio Somos Cidade 2025 na categoria Edifício do Ano e foi um dos vencedores na categoria Residential Architecture da edição 2025 do iF Design Award, uma das principais premiações de design do mundo. “Para a OSPA, conquistar o iF Design Award, premiação com mais de 70 anos de tradição e referência absoluta no design global, confirma a eficácia de uma abordagem que harmoniza inovação estética, funcionalidade e sensibilidade às necessidades do mercado em seus projetos”, destaca Milani.

FICHA TÉCNICA
DESENVOLVEDOR | ABF Developments
PROGRAMA | Edifício Residencial Multifamiliar
LOCALIZAÇÃO | Porto Alegre, RS, BR
STATUS | Construído
ANO | 2017 – 2023
ÁREA DO PROJETO | 5.889,83 m²
ÁREA DO TERRENO | 2.180,23 m²
EQUIPE OSPA Architecture
SÓCIO RESPONSÁVEL | Rodrigo Milani, Carolina Souza Pinto.
LÍDER DE PROJETO | Franco Miotto, Bruna Ibrahim.
ESPECIALISTAS | Carolina Souza Pinto, Lucas Obino, Cristiano Carneiro.
ARQUITETURA | Franco Miotto, Bruna Ibrahim, Brunna Kronbauer, Augusto Tumelero, Laura Aurvalle.
INTERIORES | Rodrigo Milani, Ellen Renata Bernardi.
SINALÉTICA | Rodrigo Milani, Laura Zimmer.
ELÉTRICA | Fernando Chiapinotto, Jefferson Geraldi, Thiago Melo, Deyvid Matos, Julia Zarth.
GÁS | Juliana Nora, Fernando Chiapinotto, Rodrigo Henke, Luiz Storck.
HIDRÁULICA | Juliana Nora, Fernando Chiapinotto, Rodrigo Henke, Luiz Storck, Julia Zarth.
MECÂNICA | Flávio Teixeira, Gabriel Tocchetto.
PPCI | Juliana Nora, Júlia Zarth, Fernando Chiapinotto, Franciele Pereira.
COLABORADORES
ACÚSTICA | Atelier Sul
ADEGA | Lacava
CGI | Blackhaus
CURADORIA DE ARTE | Galeria Zielinsky
ESTRUTURA | Simon Engenharia
FOTOGRAFIA | Gabriel Konrath
FUNDAÇÕES | Milititsky Consultoria Geotécnica
IMPERMEABILIZAÇÃO | Dienstmann
LUMINOTÉCNICO | Studio FOS
PAISAGISMO | Hanazaki
PISCINA | Prolazer
SEGURANÇA PATRIMONIAL | Squadra
Fotos: Gabriel Konrath | Divulgação OSPA Architecture






