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Moysés Liz: grande nome da arquitetura catarinense recebe homenagem por seus 60 anos de carreira

Por junho 8, 2022junho 12th, 2022No Comments

“Eu me sinto lisonjeado, e grato por ver esse reconhecimento à minha contribuição para construir um pouquinho dessa cidade”. A afirmação é do arquiteto Moysés Liz diante da surpresa da homenagem que recebeu nesta segunda-feira, dia 6 de junho, em Florianópolis, a cidade que ele escolheu para viver, em 1960, e que ajudou a construir. E esse “pouquinho” a que ele se refere, com muita humildade, representa um conjunto de quase 200 obras, muitas delas de grande representatividade, ícones da Arquitetura Moderna em Santa Catarina.

A postura humilde é um dos traços marcantes da sua personalidade, assim como a generosidade, sempre compartilhando seu conhecimento e experiência quando convidado. E foi o que ele fez durante o evento, realizado no auditório do campi da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul) no centro de Florianópolis por iniciativa da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura de  Santa Catarina (AsBEA SC), diante de uma plateia formada por profissionais da área, estudantes, ex-parceiros de projetos e até por alguns de seus clientes. O evento foi transmitido ao vivo pelo perfil da AsBEA SC no Instagram. Clique aqui para assistir. 

Aos 87 anos de idade, já aposentado e afastado da prática profissional, ele recorda bem os programas de necessidades, os desafios e as inovações de cada grande obra, projetada de forma individual ou em parceria com outros arquitetos como Valmy Bittencourt, Odilon Monteiro, Ademar Cassol e Enrique Brena. Sua trajetória de 60 anos de arquitetura é pontuada por marcos históricos no desenvolvimento da cidade, com atenção à vida urbana. “Nós, arquitetos, somos cocriadores do mundo que foi feito pelo criador-mor. Nós construímos cenários onde a vida acontece e isso é maravilhoso. Quando a beleza da vida é buscada com amor, a tua mão é dirigida, o traço surge espontâneo e a inspiração vem. É dessa forma que vejo nossa profissão. É um privilégio sermos cocriadores do cenário onde acontece a vida”, afirmou Moysés Liz.

No evento, ele recordou algumas de suas criações e acrescentou características e curiosidades sobre as obras, acompanhando a apresentação preparada pelo arquiteto Leonardo Bertoldi Borges, formado pela Unisul  e mestrando em Arquitetura pela Universidade Federal de Santa Catarina na área de história da Arquitetura Moderna de Florianópolis e pesquisador da obra dos arquitetos Liz Cassol Monteiro. “É extremamente importante essa homenagem pela obra de Moysés, por toda a relevância que ela tem para a arquitetura de Florianópolis e do estado”, enfatizou Leonardo. 

Entre as diversas obras destacadas estavam os prédios do Tribunal de Contas do Estado (1973); da extinta Telecomunicações de Santa Catarina – Telesc (1972), no bairro Itacorubi, adquirido pela Udesc em 2019, e a unidade do Centro (1974), hoje ocupado pelo banco Safra, todos projetados por Liz e Monteiro; da Centrais Elétricas de Santa Catarina – Celesc (1986), projetado pelos arquitetos Moysés Liz, Odilon Monteiro e Enrique Brena; do Ceisa Center (1975), projetado por Moysés Liz, Ademar Cassol e Odilon Monteiro, ainda sendo o maior prédio comercial de Santa Catarina, com aproximadamente 30.000 metros quadrados; e o do campi da Unisul no centro de Florianópolis, onde foi realizado o evento, projetado em 1981 por Liz e Monteiro para servir de sede para o setor administrativo da indústria Portobello à época.

E, também, edificações residenciais, como uma casa erguida nos anos 1970 no bairro Bom Abrigo, ocupada atualmente por Rita de Cássia Malucelli Harger, presente no evento. “A senhora está gostando de morar lá?”, perguntou ele, arrancando risadas da plateia. “É o meu xodó”, respondeu ela. Quem também prestigiou a solenidade foi o arquiteto Tuing Ching Chang, especializado em cálculo estrutural, colaborador de muitas das obras de Moysés Liz. “Graças a ele muita coisa foi feita”, destacou Liz.

O evento contou com o patrocínio da Portobello Engenharia e a condução da jornalista Letícia Wilson.

 Trajetória marcada pela inovação

Moysés Liz nasceu no distrito de Lages, em Santa Catarina, estudou arquitetura em Porto Alegre, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, entre 1954 e 1959, uma das únicas do país à época. E, em 1960, escolheu Florianópolis para viver, encantado pela natureza exuberante do lugar. Como um dos únicos arquitetos da cidade, percebeu o potencial de mercado e a grande oportunidade de participar do desenvolvimento local.

Uma das primeiras oportunidades de trabalho foi em parceria com o arquiteto Valmy Bittencourt, formado no Rio de Janeiro, outro pioneiro na região. Valmy havia ganhado a concorrência para o Hospital Governador Celso Ramos e convidou Moysés para participar do projeto. Quando chegou a época de iniciar a implantação, surgiu a oportunidade para Valmy de uma bolsa de estudos na França e Moysés – recém-formado e recém-chegado à cidade, assumiu o projeto do Hospital, inaugurado em 1964. De lá para cá, sua trajetória é pontuada por outros importantes marcos para Florianópolis, e por uma intensa produção de ícones da arquitetura – com ênfase na Arquitetura Moderna.

Durante a pesquisa sobre as obras do arquiteto, percebemos a influência que a Arquitetura Moderna brasileira tem na obra de Moysés e, além disso, começamos a perceber uma linguagem própria dele nas soluções estéticas e funcionais, no rigor técnico com que essas obras foram construídas, com soluções estruturais totalmente inovadoras para a arquitetura da cidade em propostas muito bem fundamentadas”, conta Leonardo Bertoldi Borges. No Ceisa Center, segundo ele, foi utilizada a primeira laje em concreto protendido do estado, e, no projeto da antiga Telesc, o uso das peças pré-moldadas em concreto. “Nas casas projetadas por ele, a gente encontra diversas soluções que na época não eram comuns na cidade, como coberturas pré-moldadas, esquadrias com sistema de contrapeso, venezianas móveis, lajes abobadadas, a valorização do paisagismo – tudo isso está presente na obra de Moysés”, destaca.

 

 

As influências e a relação com a cidade

Leonardo Bertoldi Borges ressalta que, na arquitetura de Moysés, percebe-se influências que vinham desde  a arquitetura da Grécia antiga até as estruturas de Luigi Nervi (engenheiro civil italiano famoso por seus edifícios em concreto armado), assim como de mestres da arquitetura, como Vilanova Artigas, Sérgio Bernardes e Affonso Eduardo Reidy. “Moysés estava sempre inteirado com o que estava acontecendo na arquitetura do Brasil e de outros países, mas eu queria destacar a maestria com o que esses projetos foram desenhados e adaptados à realidade de Florianópolis, uma cidade que passava por longas e diversas tentativas de modernização. A gente observa, nas obras de Moysés, uma linguagem moderna, mas adaptada à realidade da mão de obra, à realidade das técnicas possíveis”, pontuou.  De acordo com Leonardo, muitos desses edifícios permanecem atuais e funcionais até hoje. “Essa cidade está cheia de obras de Moysés e isso é um privilégio. Ele ajudou a construir essa cidade e a deixá-la mais bonita”, ressaltou.

Outras obras de destaque na cidade que levam a assinatura de Moysés Liz são o prédio da Biblioteca Pública de Santa Catarina, projetado em 1973, e a nova sede do Conselho Regional de Medicina (CRM), inaugurada em 2014, um dos últimos projetos desenvolvidos por ele. Moysés diz que se considera de certa forma privilegiado por ter podido largar a lapiseira para “cuidar de si mesmo”.

“Com a maturidade, vieram outras buscas para o Moysés, além da arquitetura. Ele é interessado pela vida, na busca por respostas no plano espiritual, com a prática de tai-shi, cerimônia do chá, mística andina, que trazem movimento e equilíbrio para a sua vida. Após tantos anos dedicado ao trabalho como arquiteto, ele não está mais debruçado sobre uma prancheta como fez durante 60 anos, mas procurando sempre fontes de aprendizado e de prazer em tudo aquilo que lhe faz sentido”, disse a arquiteta Flávia de Liz Arcari, filha de Moysés e sua parceira profissional por 35 anos.

No evento, ela fez um emocionado discurso sobre a relação do pai com a cidade que escolheu para viver. Ela referenciou o seu senso estético e crítico, sua capacidade de síntese, o desenho limpo e a inovação, característica marcante desde seus primeiros projetos, como o da casa da família projetada por ele em um terreno à beira-mar na enseada do Saco dos Limões numa época em que as casas da cidade tinham suas áreas mais nobres voltadas para as ruas.

“O mar era tratado quase que com desprezo pelos moradores. Dele tiravam o sustento, mas não davam valor para aquela vista”, destacou Flávia. Moysés projetou a sua casa toda voltada para aquela vista belíssima do mar que podia ser apreciada pelas áreas sociais que davam para uma ampla varanda e, também, da cozinha e dos dormitórios. “Aquele tipo de arquitetura era uma inovação no bairro e na cidade. Florianópolis vinha crescendo e se modificando e as oportunidades surgindo. Com isso, Moysés pode colocar em prática suas ideias modernistas”, afirmou.

Moysés Liz fala da inspiração que teve de mudar-se para Florianópolis. “Eu fui recebido de braços abertos e tive experiências inesquecíveis”, diz. Quando completou 80 anos, resolveu se aposentar. “Larguei a lapiseira. Já tinha dado meu recado e precisava dar oportunidade a outros colegas. Passei a querer cuidar apenas da minha vida, da minha saúde, e a não ter compromisso – melhor coisa da vida é usufruir”, afirmou. Para ele, o mais importante é viver. “Temos que dar graças por estar presente nesse momento, vivendo a vida, é um presente, um obséquio. É um grande presente poder estar vivendo e usufruindo esse momento. E esse momento é muito gratificante, inesperado, uma surpresa agradável. Eu me sinto lisonjeado”, disse Moysés Liz. 

O arquiteto foi presenteado pela AsBEA-SC com uma obra de arte em fotografia expandida criada especialmente para ele pelo engenheiro e artista Olavo Kucker Arantes, sócio da Dux Arquitetura e Engenharia Bioclimática, um dos escritórios associados à entidade. A entrega teve um significado especial. Olavo é filho do engenheiro civil Olavo Fontana Arantes, falecido em 2017, que atuou ao lado de Moysés no Departamento de Obras Públicas do Estado por muitos anos e participou de grandes obras da cidade que levam a assinatura do arquiteto, como a do Hospital Celso Ramos e a do Ceisa Center, tendo sido um dos diretores da construtora que deu nome ao prédio. A homenagem emocionou Moysés Liz. “Olavo era um grande amigo, um profissional de mão cheia, que dirigia com muita técnica e maestria as obras. E prestigiava muito o nosso trabalho, como arquitetos. Ele procurava ser fiel àquilo que a gente queria fazer”, registrou Moysés Liz.

 

Galeria de imagens do evento:

Fotos: Fernando Willadino | Divulgação

 

Assista ao evento:

 

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