No mês de aniversário das três capitais da região Sul — Florianópolis, em 23 de março; Porto Alegre, no dia 26; e Curitiba, no dia 29 —, a revista ÁREA convidou os presidentes dos departamentos estaduais do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) a compartilharem suas visões sobre as potencialidades, os desafios e as prioridades de cada cidade em relação à arquitetura, ao desenvolvimento urbano e ao patrimônio histórico.
Confira, nesta entrevista, a opinião do arquiteto Luiz Eduardo Bini Gomes da Silva, presidente do IAB Paraná, sobre Curitiba.
Curitiba 333 anos: “a cidade precisa continuar seguindo o caminho que foi trilhado lá atrás, em consonância com as novas ferramentas de planejamento urbano”
Revista ÁREA — O que temos a comemorar hoje em Curitiba em relação à arquitetura, ao desenvolvimento urbano e ao patrimônio histórico?
Arq. Luiz Eduardo Bini — O fato de Curitiba ser uma cidade reconhecida nacional e até internacionalmente pelo seu bom planejamento urbano é um grande motivo para comemoração. As cidades costumam receber algumas alcunhas. Por exemplo, Paris é a cidade-luz, Roma é a cidade eterna e Curitiba é reconhecida pelo seu planejamento urbano — fruto de um trabalho muito consistente de arquitetos e urbanistas, alinhados com a classe política, que pensaram a cidade de forma coletiva.
Curitiba é a cidade dos parques, do transporte coletivo, das praças. É uma cidade muito rica em termos de planejamento urbano, muito bem zelada — basta ver a Praça do Japão, com obras de arte de Manabu Mabe e Tomie Ohtake. O Parque Barigui é de uma generosidade e de um cuidado incríveis. Há ainda os shows que acontecem na Pedreira Paulo Leminski, o maior espaço para espetáculos ao ar livre da América Latina. Soma-se a isso a possibilidade de pedalar por uma ciclofaixa que vai do Parque Barigui à Ópera de Arame, passando pelo Mercado Municipal e pelo Passeio Público.
Enfim, Curitiba é uma cidade que se estruturou a partir de um planejamento urbano consistente, de um sistema de transporte público coletivo de qualidade e da valorização de suas potencialidades, especialmente por meio dos parques e das áreas verdes. Esse reconhecimento — de termos uma capital vista como exemplo de planejamento urbano — é, com certeza, na opinião de grande parte dos arquitetos e urbanistas e, principalmente, do IAB Paraná, que teve grande contribuição para essa configuração, o principal motivo de comemoração do aniversário de Curitiba.
Revista ÁREA — Quais são os principais desafios e as prioridades para a cidade nessas áreas?
Arq. Luiz Eduardo Bini — Acredito que não seja uma peculiaridade apenas de Curitiba, mas um desafio para todos os grandes centros urbanos: o adensamento. A vida na cidade se configura pela busca de facilidades. O ser humano sai do campo e vai para a cidade em busca de um estilo de vida mais prático, com acesso a produtos e a confortos que a vida isolada não possibilita. Assim, a configuração de uma cidade é, primordialmente, voltada à facilitação e à boa convivência.
Com o grande adensamento que todas as cidades — especialmente as capitais brasileiras — vêm enfrentando, isso se torna um desafio relevante. O aumento da densidade populacional, as questões de mobilidade e trânsito, o gerenciamento de resíduos e o tratamento de efluentes são temas complexos, que exigem gestão qualificada.
O arquiteto e urbanista é o profissional responsável por esse planejamento. É fundamental que esses profissionais, em Curitiba, ocupem o papel que lhes cabe nas reflexões sobre o planejamento urbano e na organização desse adensamento que vem ocorrendo, de forma a facilitar ainda mais a vida das pessoas, atendendo ao crescimento com melhorias no transporte e maior oferta de áreas verdes por habitante.
Curitiba precisa continuar seguindo o caminho que foi trilhado no passado, agora em consonância com as novas ferramentas de planejamento urbano disponíveis — sem perder de vista o desafio de preservar sua história. O Centro de Curitiba possui um acervo arquitetônico patrimonial invejável, de grande qualidade e com uma escala muito agradável. Isso não pode ser apagado. É fundamental preservar esse patrimônio e, ao mesmo tempo, criar mecanismos inteligentes que favoreçam o desenvolvimento e a qualidade de vida da população.
Imagem destaque: Parque Barigui, Curitiba
Foto: Valéria Rolim/CETUR
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