No mês do aniversário das três capitais da região Sul – Florianópolis, 23 de março, Porto Alegre, dia 26, e Curitiba, dia 29 –, a revista ÁREA convidou os presidentes dos departamentos estaduais do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) para compartilharem as suas visões sobre as potencialidades, os desafios e as prioridades de cada cidade em relação à arquitetura, desenvolvimento urbano e patrimônio histórico.
Confira, nesta entrevista, a opinião do arquiteto João Serraglio, presidente do IAB Santa Catarina, sobre Florianópolis.
Florianópolis 353 anos: “O grande desafio é sermos capazes de olhar para a cidade e perceber nela o valor que a torna especial”
Revista ÁREA – O que temos a comemorar hoje em Florianópolis em relação à arquitetura, desenvolvimento urbano e patrimônio histórico?
Arq. João Serraglio – Florianópolis é uma cidade excepcionalmente bela. Essa beleza decorre de uma relação muito particular entre natureza e cultura: os morros, restingas e o mar, que dialogam com centralidades dispersas conectadas com um centro histórico e vivo, dos mais agradáveis entre as capitais do Brasil.
“Co-memorar” é lembrar junto. Então, nesse aniversário, propomos olhar para o passado e celebrar aquilo que, no campo da arquitetura, ajudou a dar forma a essa relação tão especial. A criação do SEPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico, Artístico e Natural do Município), em 1974, um dos primeiros órgãos de patrimônio municipal do país, foi o que permitiu a preservação de bairros como Ribeirão da Ilha, Santo Antônio de Lisboa, e o Centro Histórico. O tombamento da Bacia da Lagoa do Peri, em 1976, marca o início das ações para a preservação do meio ambiente.
No ano de 1977, seriam criados o IPUF (Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis) e o curso de arquitetura da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), dando forma a uma cultura de planejamento com viés local e alcance público. A arquitetura é uma arte que tem um tempo longo de realização: cinquenta anos depois do surgimento dessas iniciativas inovadoras, a cidade colhe os frutos na paisagem vivenciada, que faz dessa uma cidade excepcional para se viver.
Revista ÁREA: Quais são os principais desafios e as prioridades para a cidade nessas áreas?
Arq. João Serraglio – O grande desafio é, num momento de internacionalização, sermos capazes de olhar para a cidade e perceber nela o valor que a torna especial. O que nos diferencia das outras cidades do mundo?
Uma postura provinciana de parte dos tomadores de decisão nos leva em direção a soluções mágicas, vindas de fora: smart cities, paisagismo escandinavo, grife de carro assinando projeto de prédio, quando há toda uma comunidade profissional qualificada e preparada para enfrentar os desafios em áreas como saneamento, habitação e meio ambiente.
Nesse contexto, a paisagem ocupa um lugar especial como portador de significados culturais. Isso significa passarmos a entender o valor do patrimônio construído, incluídas a arquitetura moderna e pós-moderna, e do entorno natural, apostando no reuso ao invés da demolição. Num mundo que desmorona, a restauração, das comunidades, das construções, da floresta e da paisagem, deve ser a diretriz para a arquitetura que vem.
Foto: Largo da Alfândega, no Centro de Florianópolis. | Acervo revista ÁREA





