No mês do aniversário das três capitais da região Sul – Florianópolis, 23 de março, Porto Alegre, dia 26, e Curitiba, dia 29 –, a revista ÁREA convidou os presidentes dos departamentos estaduais do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) para compartilharem as suas visões sobre as potencialidades, os desafios e as prioridades de cada cidade em relação à arquitetura, desenvolvimento urbano e patrimônio histórico.
Confira, nesta entrevista, a opinião da arquiteta e urbanista Jéssica Neves, presidente do IAB Rio Grande do Sul, sobre Porto Alegre.
Porto Alegre 254 anos: “a cidade que já foi referência em planejamento e gestão urbana passa a aprofundar desigualdades socioespaciais”
Revista ÁREA – O que temos a comemorar hoje em Porto Alegre em relação à arquitetura, desenvolvimento urbano e patrimônio histórico?
Arq. Jéssica Neves – Porto Alegre consolidou, ao longo de sua trajetória, uma tradição consistente de produção arquitetônica qualificada, com amplo reconhecimento e um repertório urbano diverso, que articula diferentes períodos históricos, linguagens e modos de produção do espaço.
Soma-se a isso a atuação de entidades de classe, instituições de ensino e pesquisa e gestões públicas que, em determinados períodos, estiveram comprometidas com agendas progressistas, contribuindo tanto para o debate crítico sobre cidade e território quanto para a formulação de iniciativas pioneiras no campo das políticas públicas de habitação, planejamento urbano e participação social, projetando a capital gaúcha como referência nos cenários nacional e internacional.
Revista ÁREA: Quais são os principais desafios e as prioridades para a cidade nessas áreas?
Arq. Jéssica Neves – Apesar de sua posição de vanguarda, a história recente e o momento atual de Porto Alegre evidenciam a predominância de políticas de austeridade e de modelos de desenvolvimento orientados pelo mercado imobiliário. A cidade que já foi referência em planejamento e gestão urbana passa a aprofundar desigualdades socioespaciais, revela a insuficiência de políticas para o enfrentamento do déficit habitacional e submete seus espaços públicos e seu patrimônio cultural a lógicas de valorização econômica.
Observa-se, ainda, a proliferação de empreendimentos que pouco dialogam com a paisagem urbana e com as reais demandas habitacionais, reforçando dinâmicas especulativas e modelos de ocupação voltados à rentabilização imobiliária.
Além disso, torna-se incontornável a incorporação das questões climáticas ao planejamento urbano, especialmente diante de eventos recentes que evidenciaram a vulnerabilidade do território e a desigual distribuição de riscos. No entanto, iniciativas recentes, como a revisão do Plano Diretor e a Operação Urbana Consorciada Nova Ipiranga, indicam fragilidades na incorporação dessas dimensões, bem como limites nos processos de participação social.
Nesse sentido, é significativo que uma cidade historicamente associada ao Orçamento Participativo hoje apresente dificuldades em garantir espaços efetivos de participação nas decisões sobre seu futuro.
No campo do patrimônio, o desafio não se restringe à preservação de edificações isoladas, mas implica ampliar a própria noção de memória e ambiência urbana. Trata-se, também, de reconhecer que a cidade historicamente produziu apagamentos, sobretudo no que se refere às contribuições e presenças negras, indígenas e periféricas no processo de formação urbana, dimensões que vêm sendo progressivamente rearticuladas por meio de práticas de resistência cultural e reivindicação de memória.
Assim, mais do que celebrar, este momento convida à reflexão crítica sobre os rumos de Porto Alegre, em direção a um planejamento urbano comprometido com a efetivação do direito à cidade, com a justiça social e com o reconhecimento de sua história.
Imagem destaque: Usina do Gasômetro, Porto Alegre
Foto: Néia Oliveira | Divulgação





