Florianópolis recebeu nesta quarta-feira, 18, o projeto “Floripa Centro: Repensando os Espaços Públicos para as Pessoas”, desenvolvido pelo escritório dinamarquês Gehl Architects, referência mundial no planejamento de “cidades para pessoas”. O estudo apresenta mais de 70 propostas que propõem a transformação da região central da capital catarinense, considerando os princípios da mobilidade sustentável, caminhabilidade, acessibilidade, segurança e valorização da vida urbana.
Encomendado e financiado pela CDL Florianópolis e pela Associação Comercial e Industrial de Florianópolis (ACIF), o estudo representou um investimento de R$ 1,2 milhão custeado integralmente pelas duas entidades e sem uso de recursos públicos, com articulação técnica do Laboratório de Urbanismo e Arquitetura (LUA) – organização da sociedade civil criada em fevereiro de 2025 por seis empresas da Grande Florianópolis: WOA, Hurbana, Dimas, CFL, Habitasul e Softplan. As propostas foram desenvolvidas a partir de subsídios apresentados em ações e oficinas colaborativas que envolveram cerca de 100 profissionais, realizadas entre setembro e novembro de 2025.
O estudo urbanístico completo foi apresentado no Teatro Álvaro de Carvalho, em evento aberto à comunidade, pelo arquiteto dinamarquês Esben Neander Kristensen, sócio da Gehl Architecs, e pela arquiteta portuguesa Rute Nieto Ferreira, gerente sênior de projetos da Gehl, e entregue ao prefeito Topázio Neto. A partir de agora, caberá ao município avaliar as diretrizes, desenvolver os projetos executivos e buscar recursos para viabilizar a implementação.
A entrega do projeto à Prefeitura ocorre às vésperas do aniversário da cidade, que completa 353 anos no dia 23 de março. E acontece em meio a uma semana inteira de reuniões institucionais entre os arquitetos da Gehl e representantes do poder público, escolas da região central, entidades empresariais e grupos da sociedade civil. Um workshop participativo já estava marcado para esta quinta-feira, dia 19 de março, dedicado ao debate de diretrizes urbanas para a orla da Beira-Mar Norte, reunindo especialistas, representantes da sociedade civil e profissionais que participaram das etapas anteriores do estudo (saiba mais ao longo da matéria).
Oficinas colaborativas: cidade para pessoas
O estudo urbanístico apresentado foi desenvolvido a partir de ações e oficinas colaborativas que envolveram mais de 100 pessoas. O processo contou com a realização de análises urbanas, levantamentos técnicos e encontros com diferentes grupos locais, incluindo representantes do poder público, entidades, escolas, comerciantes e moradores do Centro. O objetivo foi compreender padrões de circulação, permanência e uso dos espaços públicos na área central.
“Nós não começamos pelo desenho, mas pelas pessoas. Observamos como a cidade é vivida e ouvimos diferentes grupos para entender que tipo de experiências elas querem ter no dia a dia e como enxergam Florianópolis daqui há algumas décadas. A partir disso, conseguimos transformar dados e percepções em um projeto urbano mais humano, conectado com a realidade e com o futuro da cidade, que tem um potencial gigantesco”, afirmou Rute Nieto Ferreira, da Gehl Architects.
Entre o dia 30 de outubro e 10 de novembro foi realizada uma série de quatro oficinas, coordenadas por Rute. De acordo com a arquiteta Tatiana Filomeno, diretora executiva do LUA, uma centena de pessoas estiveram envolvidas, sendo 27 profissionais da Prefeitura de Florianópolis, 14 integrantes do LUA e 59 representantes de 14 entidades e movimentos: ACIF, CDL, AsBEA-SC, CAU-SC, CREA-SC, IAB-SC, AMOBICI, PROBICI, LABTRANS, ACATE, Floripa Sustentável, Floripamanhã, Sinduscon e Movimento Traços Urbanos, além das empresas convidadas M.URBE, JA8 Arquitetura Viva e Arboran. A intenção, segundo ela, foi unir o conhecimento técnico internacional da Gehl à experiência e sensibilidade das instituições locais parceiras.
“O LUA atuou ajudando a traduzir a metodologia da Gehl para o contexto da cidade e promovendo o diálogo com diferentes atores, como poder público, entidades, escolas, comerciantes e moradores do Centro. Esse trabalho permitiu integrar dados, escuta e conhecimento local ao método de análise da vida pública, resultando em diretrizes que dialogam com a identidade da cidade e com a forma como as pessoas realmente usam esses espaços”, explica Tatiana Filomeno.
Os estudos consideraram o “potencial extraordinário” do Centro, região que precisa ser tratada com prioridade, como destacou o presidente da CDL Florianópolis, Eduardo Koerich. “Qualificar os espaços públicos, incentivar a caminhabilidade e reconectar a cidade com a água e com a natureza é o que sustenta uma vida urbana mais ativa e uma economia mais dinâmica. Esse é o papel das entidades representativas: provocar, estruturar e viabilizar projetos que ajudem a cidade a avançar. Quando o setor produtivo assume essa responsabilidade, conseguimos sair do discurso e entregar soluções concretas para a sociedade”, afirmou.
Célio Bernardi, presidente da ACIF, igualmente destacou a responsabilidade das entidades de provocar a reflexão sobre o planejamento do espaço urbano da cidade e contribuir para a identificação dos desafios e para a construção de caminhos possíveis. “Quando reunimos dados, especialistas e a experiência de quem vive o centro todos os dias, conseguimos transformar debate em proposta concreta. O estudo conduzido pelo escritório Gehl traz justamente esse olhar técnico e estruturado sobre como o centro pode evoluir, respeitando sua história e, ao mesmo tempo, respondendo às demandas atuais da população”, afirmou.
Conheça os projetos-piloto
O estudo apresentado propõe um modelo de implementação gradativa, combinando intervenções estruturais com ações de curto prazo baseadas em urbanismo tático, com soluções de baixo custo e rápida execução, que permitem testar propostas e adaptar o projeto ao longo do tempo. Durante o evento, o prefeito de Florianópolis reforçou que o projeto inicialmente foi pensado para a região central, mas que, a longo prazo, pode ser replicado em outras áreas da cidade.
Praça-jardim no Centro Histórico
Um dos principais eixos do projeto é a transformação da área da Rua Francisco Tolentino e do entorno do Mercado Público em uma nova praça-jardim no Centro Histórico de Florianópolis. Com cerca de 8 mil metros quadrados, o espaço foi concebido como um ambiente urbano multifuncional voltado à permanência de pessoas, à convivência e ao fortalecimento do comércio local.
A proposta prevê que a Rua Francisco Tolentino passe a integrar o espaço da praça, com pavimentos nivelados às calçadas e prioridade para pedestres. O projeto inclui vegetação nativa, superfícies permeáveis e jardins de chuva voltados à gestão das águas pluviais, além de estruturas de sombra, assentos públicos diversificados e iluminação projetada na escala do pedestre. A escolha por espécies nativas dialoga com iniciativas já em curso na cidade, como o programa Viva a Cidade Arborizada, desenvolvido pela CDL, que busca ampliar a presença de áreas verdes e qualificar o ambiente urbano no Centro.
O desenho urbano também prevê espaços flexíveis para diferentes usos ao longo do dia e da semana, incluindo áreas para feiras, eventos culturais e convivência cotidiana. Entre os elementos propostos estão pavilhões gastronômicos, quiosques, fonte interativa de água no solo, áreas de brincar e espaços ampliados para mesas e cadeiras de bares e restaurantes.
Outro ponto sugerido é a reorganização dos pequenos com ércios da região, incluindo estruturas hoje ocupadas pelo Camelódromo e por quiosques. A proposta indica a realocação dessas atividades para novas estruturas comerciais qualificadas dentro da própria praça, integrando os negócios ao novo desenho urbano. A ideia é ampliar a permanência de pessoas no local, reduzir ilhas de calor e integrar melhor o Mercado Público à região do terminal rodoviário (TICEN) e aos fluxos de pedestres do Centro.

Zona escolar com prioridade para crianças
Outro projeto é a requalificação da Rua Esteves Júnior, a partir do conceito de rua para pessoas, com prioridade para crianças, pedestres e a vida cotidiana. A proposta prevê a criação de uma zona escolar em uma das áreas com maior concentração de escolas no Centro de Florianópolis, por onde circulam diariamente mais de 4,5 mil crianças e jovens.
O projeto inclui medidas de acalmamento do tráfego, áreas organizadas de embarque e desembarque escolar, baia específica para ônibus, bicicletário coberto e melhoria da visibilidade nos pontos de parada. Ao longo da rua, o desenho urbano incorpora arborização para sombreamento, pavimentos mais permeáveis e marcações lúdicas no chão, além de pequenos espaços de convivência com bancos, arquibancadas, mesas de jogos e áreas para atividades culturais e recreativas.
A proposta também busca estimular o uso da rua ao longo do dia, criando ambientes que convidem à permanência após o horário escolar, com pequenos quiosques, espaços flexíveis para eventos e áreas de encontro entre estudantes, famílias e moradores. A ideia é transformar a via em um espaço urbano mais seguro e ativo, funcionando não apenas como corredor de circulação, mas como uma rua de bairro com vida cotidiana.
Beira-mar como sala de estar da cidade
A reconexão entre o Centro e o mar é outro eixo estratégico do projeto. A proposta sugere transformar a Avenida Beira-Mar Norte em um espaço mais voltado às pessoas, estruturando a orla completa – do Parque Náutico até o Centro Integrado de Cultura (CIC) – como uma área contínua de convivência e lazer, uma espécie de sala de estar urbana para moradores e visitantes.
O documento apresenta diretrizes para qualificar as travessias, ampliar a segurança viária e fortalecer as conexões entre o Centro e a orla, além de propor novos usos e destinos ao longo da frente urbana. A ideia é valorizar a relação histórica da cidade com o mar e ampliar o uso desses espaços ao longo do dia, integrando mobilidade, lazer e convivência.
As propostas apresentam soluções para problemas como a grande extensão da Av. Jornalista Rubens de Arruda Ramos, conhecida como Avenida Beiramar (11 faixas), que dificulta a conexão entre o mar e o Centro, especialmente para pedestres e ciclistas. A urgência, conforme o estudo, é a criação de maior permeabilidade entre a cidade e o calçadão, iniciativa que será fundamental para garantir a vida pública ao redor do futuro Parque Marina, e, eventualmente de toda a orla, com diversas opções de lazer, esportes e recreação que sejam confortáveis e agradáveis para uso durante todo o ano.
Nas análises, consideraram as grandes distâncias entre faixas de pedestres, tempos longos de espera e travessias de baixa qualidade prejudicam a experiência do pedestre, levando ao cruzamento fora da faixa e aumentando o risco. Além disso, pontuaram a segregação da ciclovia existente, o estacionamento linear em frente aos prédios e a oportunidade de qualificar o calçadão, já consolidado para caminhadadas, e de ampliar a rede de mobilidade ativa.
Além do Parque Marina, a proposta prevê a consolidação de novos destinos ao longo da orla Norte, associando cultura, lazer, esportes e gastronomia: Parque Náutico Walter Lange, na cabeceira da ponte Colombo Salles; Forte do Santana, sob a Ponte Hercílio Luz; Pier dos Sabores, nas proximidades do Beiramar Shopping; Pieres da Praia da Pedra Grande; Baía do Pôr do Sol, na área hoje destinada à estacionamento; e Jardim das Artes, próximo ao CIC.


Fotos: Divulgação LUA
Projetos: imagens conceituais desenvolvidas pela Gehl Architects.






