A Casa da Cultura Açoriana da Enseada de Brito, em Palhoça (SC), recebe, no dia 18 de outubro, o lançamento do livro-reportagem “Enseada de Brito – Gente e Memória”. Assinada pela jornalista e escritora Cláudia Aragón, com fotografias de Caio Cezar, a obra reúne depoimentos, registros do cotidiano e relatos de trabalho, fé e celebrações que compõem o retrato de uma das comunidades açorianas mais antigas do litoral catarinense, tombada como Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.
O projeto surgiu a partir da iniciativa do arquiteto Márcio Carvalho, que propôs transformar em livro o material colhido em sua vivência junto à comunidade, que se transformou em paixão e amizades para uma vida. “Nos três anos que convivo com a Enseada, contemplei uma experiência comunitária das mais bonitas e orgânicas. Eu quis que o livro reforçasse essa característica, com histórias de vínculo e afetividade”, diz Márcio, sócio da Smart Arquitetura, de Porto Alegre (RS). O arquiteto adquiriu um terreno na localidade, onde está desenvolvendo um empreendimento hoteleiro voltado ao turismo cultural e turismo de natureza, atualmente em fase de estudos ambientais.
Márcio conta que, desde que passou a frequentar a Enseada de Brito vislumbrando este novo projeto, foi acolhido de forma única pela comunidade. Desse encontro nasceu o desejo de registrar, com um olhar sensível, as histórias de um dos lugares mais simbólicos do litoral catarinense. “Entre Porto Alegre e a Enseada de Brito há um mesmo fio que une ambas: a valorização da memória do lugar e a herança açoriana que ajudou a moldar a origem da capital gaúcha e encontra na Enseada uma expressão viva fortemente presente”, destaca.
Os exemplares foram doados para a Casa de Cultura Açoriana e estarão à venda no local, a partir do lançamento, ao valor de R$ 80,00, com 100% da renda será revertida para a comunidade, através do Conselho Comunitário e Casa da Cultura Acoriana, para contribuir com os projetos culturais e de restauro da praça e da igreja.

Enseada de Brito – Gente e Memória
A narrativa do livro se apoia em vozes locais de diferentes gerações e em imagens produzidas em ambientes domésticos, espaços de culto e frentes de trabalho, com atenção aos ritmos e práticas comunitárias. “Este livro mostra o olhar das pessoas que vivem o lugar. Os lugares são feitos de pessoas e suas vivências. E é isso que quis retratar, a vida que pulsa na Enseada de Brito, em cada gesto, tradição e memória”, afirma Cláudia Aragón.
No registro visual, Caio Cezar destaca o método adotado nas sessões fotográficas realizadas com os moradores. “Estávamos na casa deles, em seu ambiente, todos com uma carga muito forte de vivência na Enseada. A solução da ‘luz de janela’ foi bastante explorada em função disso”, explica o fotógrafo. Entre os personagens retratados está o empresário Marcelo Henrique da Silveira, o “Marcelo da Enseada”, coordenador da Comissão Pastoral e importante liderança local. Para ele, o livro cumpre o papel de memória: “Este é o primeiro livro a capturar a essência da nossa comunidade, eternizando a cultura de fé e pesca da região. É um registro que ficará para as próximas gerações”, destaca.
A Enseada de Brito, fundada entre 1748 e 1750 e reconhecida como Patrimônio Histórico pelo Iphan no âmbito das Freguesias Luso-Brasileiras da Grande Florianópolis, preserva um traçado urbano com grande terreiro entre a igreja e o mar, característica singular na região. Originalmente chamada Freguesia de Nossa Senhora do Rosário, a localidade segue procurando preservar seu conjunto arquitetônico e paisagístico como patrimônio cultural, aliado ao patrimônio imaterial, que é a força de sua gente.

A vida cotidiana que sustenta a Enseada de Brito
A ocupação açoriana do século XVIII ainda se lê no traçado urbano, com ruas estreitas, adros e capela que organizam a vida social. No cotidiano, persistem particularidades de fé e um modo de vida antigo e sustentável. Uma das únicas que ainda produz as massas do Divino à mão, Celestina Pereira da Silveira, a Dona Cici, reza enquanto molda o pão leiloado na festa de julho e para novenas, a pedido de quem faz ou paga promessas. Uma receita centenária.
Na Enseada, a água é captada pela própria comunidade. É ‘puxada’ por canos a partir de uma caixa d’água de pedra. Ela é cristalina e cheia de oxigênio, pois está sempre em movimento – e não é permitido tomar banho na captação. O calendário local continua ancorado nas festas do Divino e celebrações de padroeiros, nas safras da tainha e do camarão, que regulam rotinas e encontros. Na arquitetura ainda são recorrentes as portas altas, janelas de guilhotina e pintura à cal. Saberes práticos, como nós, preparo de iscas, cultivo de quintais e remédios caseiros, circulam entre gerações, sustentando um repertório de técnicas transmitidas pela experiência. Repleta de história, com uma comunidade acolhedora, a Enseada de Brito é uma rara oportunidade de mergulhar no tempo.
Os personagens são apresentados em fotos e fatos riquíssimos. Além da Dona Cici, estão no livro o Seu Antônio Emanuel de Limas (in memoriam), uma pessoa importantíssima na comunidade, que faleceu aos 99 anos, antes de ver o livro e ficar pronto; Flávio Roberto Gonçalves, o Beto, que é quem coordena a praia de naturismo, a praia de Pedras Altas; Fernando Brasil, coordenador da Casa de Cultura Açoriana; Camilo Martins, deputado estadual e ex-prefeito de Palhoça; João Dias Dão, artista reconhecido como Mestre da Cultura Popular de Santa Catarina, fundador da Casa de Cultura Açoriana, autor da escultura de São Francisco presenteada ao Papa Francisco; Dauri Sidini dos Santos e Dilma Elias de Souza, guardiões da água da Enseada; Família de Souza – Eduardo, Patrícia, Maria Clara e Eduardo – festeiros do Divino Espírito Santo de 2024.
Estão também no livro: Eduardo Freccia, prefeito de Palhoça; Israel de Souza, pescador, cujo avô, seu Martinho, introduziu a maricultura na Enseada; Ivenes Pacheco Rodrigues, ex-seminarista; Jacinto Genésio dos Santos, procurador da bandeira do Divino Espírito Santo, guardião da “chave” da igreja; Noailson Otávio da Silva, o Kadá, pescador; Dona Mariazinha de Souza Moraes, filha de escrivão local e professora; Marcelo Henrique da Silveira, o Marcelo da Enseada, líder comunitário; Família Rocha – Mário, Marina e Lourdes, moradores das casas mais antigas da Enseada; João Moacir dos Santos, “especialista” das trilhas da Enseada; Mônica Pasqualini, arquiteta, proprietária do “casarão” da Enseada, construída em 1702; Zenilda Martinha Martins, a Dona Nida, rendeira, professora de Tramoia, o estilo açoriano da trama; Rosalina Darlin, da Dona Olinda, a primeira catequista da região, viúva do oleiro Inácio Paulo Dalri, que dá nome à praça local; Joel Filipe Gaspar, o Pakão, vereador; Noailton Otávio da Silva, o Pedrita, presidente do Enseadense Futebol Clube; Gelci José Coelho, o Peninha (in memoriam), artista, escritor, pioneiro em museologia em Santa Catarina, discípulo de Franklin Caescaes; Antônio Manoel Pereira, o Seu Pereirinha, “cantador” do Divino Espírito Santo; Nirdo Artur Luz, o Pitanta, vereador mais longevo do país, com trajetória política iniciada em 1976; e Suzana Aparecida Albano, proprietária do cartório local.
Serviço
Evento: Lançamento do livro-reportagem “Enseada de Brito – Gente e Memória”
Data: Sábado, 18 de outubro
Horário: 10h30 às 14h
Local: Casa de Cultura Açoriana da Enseada de Brito — R. Mil Quinhentos e Sessenta e Dois, 78 – Enseada de Brito
Entrada: gratuita
Os livros podem ser adquiridos, a partir do lançamento, diretamente na Casa de Cultura ao valor de R$ 80,00.
Os recursos serão destinados a projetos culturais e de restauro da praça e igreja.
Fotos da matéria: Divulgação
Fotos publicadas no livro: Caio Cezar





