Artigo: Indicadores de performance na construção civil

Por Raphael Chelin* 

Quando a conversa gira em torno dos indicadores de performance na construção civil, qual é o primeiro parâmetro em que você pensa? “Resultados financeiros” é a resposta mais comum. O que é normal, afinal, essa é uma medida importante para avaliar o sucesso de um empreendimento. Contudo, estudar custos e lucratividade não é a única forma de analisar a performance de projetos de construção.

Neste artigo, vamos apresentar uma lista completa de diferentes grupos de informações e dados importantes para mapear o nível de produtividade e eficiência de uma obra. Siga a leitura e convença-se a ampliar a lista de indicadores de performance que utiliza para avaliar suas obras. Você vai ver como essa mudança vai ajudá-lo a entender melhor os pontos fortes e fracos da sua gestão de obras e, portanto, facilitará a busca por caminhos cada vez melhores.

A importância de um olhar mais amplo na avaliação da performance de um projeto

Um estudo feito no Reino Unido revelou que a maioria (43%) das empresas de construção prioriza metas financeiras imediatas sobre a resiliência organizacional. De acordo com o levantamento, as organizações estão mais preocupadas em lucrar no curto prazo do que em resolver problemas como, por exemplo, Orçamento ineficiente; Falta de conhecimento e habilidade dos profissionais; Falta de transparência nos processos; e Gestão sem visão estratégica. Ou seja, por focar apenas no ganho imediato, muitas construtoras deixam de olhar para problemas e falhas que causam ineficiências e perda de dinheiro, e que podem prejudicar a sobrevivência da empresa no longo prazo.

É por isso que é tão importante acompanhar não apenas os indicadores de performance financeiros, mas também critérios relacionados a diferentes áreas e etapas do desenvolvimento de uma obra.

Os principais indicadores de performance na construção civil

Os indicadores de performance na construção civil podem ser divididos em sete áreas:

  • TEMPO

Nesta área são analisados dados relacionados ao tempo de design e construção da obra. Ou seja, aqui devem ser avaliadas questões como, por exemplo: O cronograma está sendo seguido? Qual é a média de atraso das entregas? Quais fatores estão condicionando os atrasos? Esses atrasos estão concentrados em áreas específicas? Se sim, em quais? Qual é o custo desses atrasos? As restrições (ações prévias que são necessárias para a execução de atividades, como processo de compras, liberação de frentes, atestados etc.) estão sendo removidas dentro do prazo? Qual impacto os desvios medidos até o momento terão na tendência de prazo da obra?

A partir dessas análises, é possível identificar se é necessário fazer ajustes no cronograma em si ou se é preciso resolver problemas em outras áreas para que as entregas aconteçam de forma mais regular e previsível.

  • CUSTOS 

As análises relacionadas aos custos do projeto e à efetividade do orçamento se encaixam aqui. Nesse sentido, é possível levantar dados como, por exemplo: O orçamento previsto está sendo seguido? Os custos estão acima ou abaixo do programado? Qual é a média de custo extra por período (mês)? Quais são as áreas que mais estão gerando custos extras? Qual etapa da obra está tendo sobrecustos? Qual a tendência de desvio de custo para o total da obra? O desvio de custos é por custo unitário ou consumo acima do orçamento

Levantando essas informações, é possível ter uma noção clara das causas de furos no orçamento, se é preciso revisar o planejamento financeiro ou se há necessidade de melhorias e correções em outras áreas. A falta de capacitação de profissionais no canteiro de obra, por exemplo, pode causar desperdícios de materiais – e, assim, gerar custos extras não previstos. Ou seja, de nada adianta ajustar o orçamento se a origem do problema não for trabalhada.

  • QUALIDADE

Esta área cobre informações sobre o nível de qualidade dos processos e das estruturas. Portanto, vale analisar questões como, por exemplo: Média de não-conformidades (ou seja, estruturas e processos que fogem às normas);  Média de retrabalho de tarefas e estruturas; e média defeitos identificados por período (semana ou mês); Áreas da obra mais afetadas por retrabalhos, defeitos e não-conformidades; Principais causas dos retrabalhos; Custo desses erros no desenvolvimento da obra.

Essas informações ajudam a entender as causas de erros e retrabalhos que afetam a qualidade da obra e também o planejamento do projeto como um todo. Saber mais sobre como essas falhas acontecem (e o que elas causam) é fundamental para resolver os problemas o mais rápido possível.

  • CLIENTES

Nesta área, é importante avaliar como está o relacionamento com os clientes. Para isso, podem ser levantados indicadores como, por exemplo: Nível de satisfação dos clientes com a qualidade da obra, o cronograma de entrega, a comunicação sobre as atualizações da obra e a média de pedidos de mudanças no projeto.

Esse tipo de análise é importante porque ajuda a construtora a ter um entendimento mais claro sobre as expectativas e preferências do cliente. Além de ser relevante para manter um bom relacionamento com os clientes atuais, esse conhecimento aumenta as chances de a empresa conseguir mais negócios no futuro.

  • TIME

É crucial analisar indicadores relacionados à produtividade e à satisfação dos colaboradores envolvidos no projeto. Estas são algumas das informações que podem ajudar nessa análise: Nível de satisfação dos colaboradores com o trabalho; Índice de turnover; Média de ausências/faltas não justificadas; Áreas em que os colaboradores estão mais insatisfeitos; Índices de produtividade por times (quais áreas estão entregando no prazo e quais estão atrasando; quais estão gerando mais custos extras e quais estão seguindo o orçamento etc.)

Contar com profissionais motivados a fazer o melhor trabalho possível é fundamental para garantir o sucesso da obra e do empreendimento. Além disso, ao ter uma visão mais clara sobre os profissionais e áreas menos produtivos, você poderá agir para resolver problemas que possam causar atrasos e prejuízos para a obra como um todo.

  • NEGÓCIO

Aqui devem ser levantados parâmetros que indiquem o nível de efetividade do negócio em termos de oportunidades de vendas e alinhamento ao mercado. Estes são alguns índices que podem ser avaliados nesse sentido: Potencial de retorno financeiro previsto X faturamento de vendas; Retorno sobre o Investimento (ROI); Tempo de venda (se foi vendido no tempo previsto); Contribuição do projeto para o faturamento anual da empresa; Comparação da performance de venda com outros empreendimentos do mesmo padrão.

É importante analisar se o projeto atendeu às expectativas financeiras projetadas e também quais foram os fatores que contribuíram para isso. Esse tipo de estudo vai ajudar a identificar práticas e estratégias que trarão mais lucratividade para seus projetos futuros.

  • SEGURANÇA 

Nesta etapa são avaliados números relacionados à saúde e ao bem-estar dos profissionais – e que, portanto, indicam o nível de segurança da obra. Para essa análise, é preciso levar em conta indicadores como, por exemplo: Número de acidentes por período (dia, semana ou mês), se causados por falhas de processos (procedimentos inadequados, fora do padrão/normas), por equipamentos (máquinas danificadas) ou por erros humanos (falta de treinamento, falta do uso de EPI); Número de fatalidades; Índice de acidentes por área; e Custo (financeiro e de tempo) dos acidentes.

Ao entender de verdade o que gera acidentes e onde essas situações ocorrem o gestor da obra entenderá melhor como evitá-las no futuro. Garantir a saúde e o bem-estar dos colaboradores deve ser uma prioridade para as empresas de construção.

Como definir os indicadores-chave das obras

Os indicadores de performance listados acima são alguns dos principais dados e números que podem ajudar a dar mais clareza e controle para a gestão da obra. Porém, além de buscar maneiras de monitorar diferentes áreas e etapas da construção, cada construtora ou incorporadora deve definir quais são os indicadores-chave para a sua organização (os chamados KPIs – do inglês, key performance indicators).

Os KPIs da construção civil devem ser definidos de acordo com as prioridades e objetivos estratégicos de cada empresa. São os indicadores mais relevantes para que o negócio possa alcançar suas metas e evoluir dentro de seu mercado de atuação.

Estas são algumas questões importantes na hora de definir os KPIs dos projetos de construção:

  • Defina indicadores que possam ser mensurados
    Não adianta estabelecer um KPI de uma área ou processo sobre o qual não há nenhum tipo de informação ou maneiras de se obter informações. Ao definir um indicador-chave, estabeleça também as formas pelas quais você levantará os dados relacionados a esse indicador. Ou seja, entenda questões como, por exemplo: Já existem dados sobre essa área? É possível melhorar o levantamento das informações? O que é necessário para aprimorar a mensuração desses indicadores?
  • Seja específico e objetivo, mas tenha uma visão estratégica
    Quanto mais específico for o indicador, mais precisa será a análise que você realizará. Contudo, é importante entender que, muitas vezes, um indicador sozinho não conta a história toda. Alto índice de retrabalho, por exemplo, é um problema que pode ser causado por uma série de fatores – como falta de treinamento, comunicação ruim dos gestores com a equipe e falta de equipamentos necessários. Ou seja, só analisando diferentes parâmetros é possível entender de verdade a origem de um indicador específico.
  • Defina periodicidade de análise
    Por fim, também é importante estabelecer critérios para o levantamento dos indicadores-chave. Algumas análises demandam atualização diária; outras devem ser verificadas mensalmente ou até semestralmente. Avalie os processos e a velocidade dos ciclos de cada área para entender a periodicidade ideal. O importante é que esse cronograma de levantamento dos dados seja seguido à risca.

Referências: Gov.uk; Autodesk; Sienge

 

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  • Raphael Chelin é bacharel em Engenharia Civil pela USP é co-fundador da Celere, startup fundada em 2015, atuando como engenharia compartilhada. A Celere desenvolveu o Budget Analytics, uma metodologia/ferramenta que possibilita otimização de projetos e redução dos custos de construção.

 

Imagem destaque: Freepik 

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