“O verdadeiro desafio da arquitetura para a longevidade não é adaptar espaços para a velhice, mas projetar ambientes que acompanhem as pessoas durante toda a sua trajetória de vida”. A afirmação é da arquiteta Flavia Ranieri, especialista em geroarquitetura, um dos destaques na programação de conteúdos da 25ª Movelsul Brasil, que ocorrerá de 17 a 20 de agosto, em Bento Gonçalves (RS).
O termo geroarquitetura é utilizado para referenciar projetos arquitetônicos desenvolvidos com base na gerontologia, ciência que estuda o processo de envelhecimento. Flavia conta que o termo foi inicialmente apresentado em 2019 por Antonio Manoel Nunes Castelnou Neto, em um estudo acadêmico, e ela passou a utilizá-lo, associado a uma metodologia própria desenvolvida, na qual integra também conceitos da neuroarquitetura, especificações das normas existentes e, especialmente, o resultado da escuta ativa e de pesquisas junto a pessoas com mais de 60 anos de idade. Nesta análise, considera cinco pilares norteadores: bio/saúde, aprendizado continuado, psico, social/conexões e segurança.
O debate provoca a importante reflexão sobre o impacto significativo da arquitetura e do design na autonomia das pessoas. O desafio, segundo ela, é compreender que não existe uma solução universal, e que é preciso abandonar listas prontas e compreender que projetar para a longevidade significa criar espaços que convidem as pessoas a viver, “e não apenas ambientes onde elas estejam protegidas”.
Graduada em arquitetura e urbanismo pela UFMG, Flavia é especializada em Gerontologia pelo Einstein, em conforto ambiental pela USP e em empreendedorismo pela FGV. Leciona em instituições de ensino como Albert Einstein, Sírio Libanês, Fundação Dom Cabral, HCOR e Instituto Europeu de Design, e é responsável pela arquitetura de interiores de diversos projetos imobiliários para idosos no Brasil, com clientes como GT-Building e Laguna (Curitiba), Viplan (Joinville), ArtHaus (Curitiba), TRK (Brasília) e Matushita (São Paulo).
Nesta entrevista exclusiva para a revista ÁREA, a arquiteta Flavia Ranieri trata sobre essa mudança de paradigma no planejamento de espaços para pessoas idosas e sobre o amadurecimento do mercado imobiliário e do design de móveis em relação à autonomia e experiência desse público.

“A longevidade está deixando de ser um nicho
e se tornando um novo parâmetro de qualidade
para toda a indústria”.
Arq. Flavia Ranieri
ENTREVISTA
Revista ÁREA – Muitas pessoas ainda associam a arquitetura para idosos à acessibilidade. Quais são os elementos que diferenciam a geroarquitetura de uma adaptação arquitetônica convencional?
Arq. Flavia Ranieri – A acessibilidade é apenas um dos componentes. Ela garante que a pessoa consiga entrar e utilizar um ambiente. A geroarquitetura vai muito além: ela busca criar espaços que preservem autonomia, independência, segurança, vínculos sociais e propósito ao longo do envelhecimento.
Quando projetamos para a longevidade, pensamos em aspectos físicos, cognitivos, sensoriais, emocionais e sociais. Um ambiente pode ser totalmente acessível e, ainda assim, favorecer o isolamento, a perda de autonomia ou o excesso de dependência. O objetivo deixa de ser apenas eliminar barreiras e passa a ser ampliar a qualidade de vida. É uma mudança de paradigma: sair do projeto voltado para a doença e pensar em ambientes capazes de sustentar uma vida mais longa, ativa e significativa.
ÁREA – Quais são os erros mais comuns que arquitetos, designers e incorporadores ainda cometem ao pensarem ambientes para o público 60+?
Arq. Flavia Ranieri – O primeiro erro é imaginar que existe um único perfil de pessoa idosa. Estamos falando de um público extremamente diverso, com diferentes níveis de saúde, renda, hábitos e expectativas. Outro equívoco é tratar segurança e estética como opostos. Ainda vemos projetos com aparência hospitalar ou institucional quando, na verdade, conforto, elegância e segurança podem coexistir.
Também é comum que o projeto seja desenvolvido pensando apenas na entrega física do empreendimento, sem considerar sua operação. Um espaço pode ser bonito, mas gerar custos elevados, exigir mais funcionários ou dificultar o funcionamento cotidiano. Por fim, muitos projetos ainda começam pela solução arquitetônica, quando deveriam começar pela experiência que se deseja proporcionar.
ÁREA – O conceito de envelhecimento ativo tem ganhado força. Como a arquitetura pode estimular autonomia, convivência e bem-estar, em vez de apenas prevenir acidentes?
Arq. Flavia Ranieri – A arquitetura influencia diretamente o comportamento das pessoas. Um ambiente pode incentivar alguém a caminhar mais, cozinhar, receber amigos, participar de atividades ou manter sua independência por mais tempo. Da mesma forma, pode estimular o isolamento, a inatividade e a dependência.
Quando pensamos apenas na prevenção de quedas, deixamos de explorar todo o potencial do espaço construído. Boas soluções incluem percursos agradáveis, espaços de encontro, iluminação que favoreça o ritmo circadiano, mobiliário confortável, ambientes flexíveis e uma organização espacial intuitiva, que reduza o esforço cognitivo.
ÁREA – Temos visto o lançamento de condomínios, residenciais e empreendimentos desenvolvidos exclusivamente para o público sênior. Como você avalia essa tendência? Ela representa uma evolução do mercado ou ainda há equívocos na forma como esses projetos estão sendo concebidos?
Arq. Flavia Ranieri – Sem dúvida, é uma evolução. Finalmente, o mercado reconheceu que existe uma demanda crescente e que, para envelhecer bem, precisamos de mais opções para que cada pessoa encontre a solução que melhor se encaixe nos seus desejos e na sua realidade.
Ao mesmo tempo, ainda vejo muitos empreendimentos sendo concebidos a partir de estereótipos. Alguns reproduzem modelos estrangeiros ou focam somente em saúde, sem uma visão gerontológica mais ampla, enquanto outros apostam apenas em áreas de lazer, sem uma reflexão mais profunda sobre autonomia, serviços, operação e experiência do morador.
Mas eu não seria tão dura dizendo que são equívocos. Estamos amadurecendo esses modelos e os adequando à cultura brasileira. Enquanto países europeus demoraram mais de cem anos para fazer a inversão etária, no Brasil demoramos menos de dez. Então, é natural que, no intuito de encontrar a melhor solução, descompassos ocorram. E é nessas horas que aprendemos o que funciona ou não para a nossa população. Temos mais de dez projetos sendo desenvolvidos simultaneamente no escritório atualmente, e nenhum deles é igual ao outro. Acho isso muito rico.
Outro ponto importante é que nem todo empreendimento voltado para pessoas mais velhas precisa ser exclusivo para esse público. Em muitos casos, soluções intergeracionais oferecem resultados ainda melhores. A longevidade não é um segmento imobiliário. Ela é uma nova forma de pensar a habitação.

Foto: Juliano Fogaça | Divulgação
ÁREA – No setor moveleiro, quais são os principais desafios para desenvolver produtos que conciliem segurança, conforto, funcionalidade e estética?
Arq. Flavia Ranieri – O maior desafio é abandonar a ideia de que ergonomia significa aumentar medidas ou adicionar apoios. Um móvel precisa dialogar com a biomecânica do corpo, mas também com a rotina de uso. Altura do assento, profundidade, apoio para os braços, estabilidade, facilidade para levantar, contraste visual, textura dos materiais, altura dos alcances, tipo de puxador e ferragens fazem diferença no uso diário.
Ao mesmo tempo, ninguém deseja que sua casa pareça um ambiente hospitalar. O desafio da indústria é incorporar essas soluções de forma discreta, elegante e desejável. Quando isso acontece, o produto beneficia pessoas de todas as idades.
ÁREA – Que características o consumidor sênior deve observar na hora de escolher móveis para sua casa? Há detalhes que costumam passar despercebidos, mas fazem grande diferença no dia a dia?
Arq. Flavia Ranieri – Muitas vezes, os detalhes mais importantes são justamente os menos percebidos. Vale observar se o sofá permite levantar-se com facilidade, se a poltrona oferece apoio para os braços, se a cama está em uma altura segura, se as cadeiras permanecem estáveis durante a mudança de posição e o apoio e se os armários permitem alcançar os objetos mais utilizados, além de verificar se os sistemas de abertura não exigem esforço excessivo. A estética é importante, mas o conforto só pode ser avaliado quando o móvel é realmente utilizado.
ÁREA – Quais materiais, acabamentos e soluções construtivas contribuem para aumentar a segurança sem comprometer o design?
Arq. Flavia Ranieri – Hoje existe uma enorme variedade de soluções que praticamente “desaparecem” na arquitetura. Pisos com maior coeficiente de atrito, porcelanatos acetinados, iluminação indireta bem distribuída, perfis de LED para orientação noturna, ferragens com fechamento suave, puxadores bem desenhados e metais ergonômicos são alguns exemplos.
A tecnologia também vem ganhando espaço, com sensores de presença, iluminação automatizada, assistentes de voz e sistemas de monitoramento não invasivos. A melhor solução é aquela que funciona sem chamar atenção.
ÁREA – Equilibrar ergonomia e sofisticação é um desafio?
Arq. Flavia Ranieri – Durante muito tempo, foi. Hoje acredito que esse conflito existe muito mais na percepção do mercado do que nas possibilidades de projeto. Os melhores projetos que desenvolvemos praticamente escondem as soluções ergonômicas. Elas aparecem nas proporções, na escolha dos materiais, na iluminação, no desenho do mobiliário e na organização dos espaços.
Quando ergonomia e design caminham juntos, o usuário percebe apenas que o ambiente é confortável e agradável de usar. Esse deveria ser o objetivo.
ÁREA – O comportamento do consumidor sênior mudou bastante nos últimos anos. Como essa geração influencia as decisões de arquitetos, designers e fabricantes de móveis?
Arq. Flavia Ranieri – Essa geração está redefinindo completamente o mercado. Ela não procura produtos “para idosos”. Procura qualidade, autonomia, tecnologia, conforto e beleza. É um consumidor mais informado, que compara soluções, pesquisa, viaja, permanece ativo e deseja continuar fazendo escolhas por muito mais tempo.
Isso obriga arquitetos, designers e fabricantes a abandonarem modelos baseados na fragilidade e passarem a projetar para uma vida longa, diversa e dinâmica. Na prática, a longevidade está deixando de ser um nicho e se tornando um novo parâmetro de qualidade para toda a indústria.
ÁREA – Para a palestra que você fará na Movelsul Brasil, você promete revelar “truques” aprendidos ao longo de mais de dez anos de experiência. Você poderia adiantar alguns? Quais aprendizados costumam surpreender os profissionais da área?
Arq. Flavia Ranieri – O aprendizado que mais surpreende é perceber que pequenos detalhes podem produzir impactos enormes na autonomia das pessoas. Alguns centímetros na altura de um assento, a posição de um interruptor, a forma como um armário é organizado ou a sequência dos ambientes podem determinar se uma pessoa consegue realizar uma atividade sozinha ou passa a depender de ajuda.
Outro aprendizado importante é que não existe solução universal. O mesmo ambiente pode funcionar muito bem para uma pessoa e ser inadequado para outra. Por isso, defendo que devemos substituir listas prontas de recomendações por uma metodologia capaz de compreender como o ambiente influencia o corpo, a mente, a segurança, as conexões sociais e a possibilidade de continuar aprendendo, participando e encontrando significado ao longo da vida.
Esse é o verdadeiro desafio da arquitetura para a longevidade. Não é adaptar espaços para a velhice, mas projetar ambientes que acompanhem as pessoas durante toda a sua trajetória de vida.

Foto: Juliano Fogaça | Divulgação
SERVIÇO:
25ª Movelsul Brasil
De 17 a 20 de agosto de 2026
das 12h às 19h (no último dia, encerramento às 17h)
Palestra com Flavia Ranieri:
18/08, às 16h, na Arena do Conhecimento (Pav. E)
Parque de Eventos de Bento Gonçalves/RS
(Alameda Fenavinho, 481)
Realização: Sindicato das Indústrias do Mobiliário de Bento Gonçalves (Sindmóveis)
Informações e credenciamento: movelsul.com.br





