“Novo ícone global do muralismo contextual!”. É assim que o Instagrafite apresenta o artista visual porto-alegrense Kelvin Koubik. Ele venceu o prêmio promovido pela plataforma na categoria Novo Artista 2026. A distinção, voltada a talentos emergentes com potencial de projeção global, chegou de forma inesperada para o artista. “Antes de mais nada, eu fiquei surpreso”, afirma Kelvin. “A gente que é mais descentralizado pensa primeiro em outros circuitos. Então, no início, foi meio ‘será que é isso mesmo?’”, revela, de forma muito tranquila.
A surpresa, no entanto, deu lugar a um movimento mais reflexivo. Acostumado a manter o foco na produção contínua, o artista reconhece que o prêmio contribuiu para ele rever sua trajetória. “Às vezes, a gente não pára para olhar o que já fez. E, quando eles me escreveram, falaram desde as marcas que eu já trabalhei até a versatilidade do meu trabalho. Isso me fez olhar para trás e entender melhor o caminho”, explica.
Criado como uma plataforma de difusão e reconhecimento da arte urbana contemporânea, o Instagrafite reúne artistas de diferentes países e tem se consolidado como um espaço de visibilidade para produções que transitam entre o muralismo, o grafite e as linguagens híbridas. A categoria Novo Artista destaca nomes em ascensão com consistência de trajetória e potencial de inserção internacional.
Entre o ritmo e a imagem
A relação de Kelvin com a arte não começou pelas artes visuais. Primeiro, ele atuou como percussionista profissionalmente por uma década, entre 2007 e 2017. “Eu me senti artista antes na música do que nas artes visuais”, conta. O desenho, no entanto, esteve presente desde cedo, ainda que de forma espontânea. Incentivado pela mãe, professora de inglês, começou a desenhar nos cadernos como forma de canalizar a inquietação em sala de aula. “Eu fui desenhando e não parei mais”, diz.
O ponto de virada aconteceu com a entrada na Universidade Federal em 2010, pelas cotas para estudantes do ensino público. No Instituto de Artes da UFRGS, Kelvin amplia repertório e inicia uma investigação mais sistemática do desenho, sob orientação da artista e professora Teresa Poester. Até hoje eles trabalham e fazem coisas juntos. “Foi uma oportunidade em que eu realmente me entreguei. Meu repertório começou a se ampliar muito”, detalha.
O grafite marcou os primeiros anos, mas a partir de 2016 o artista redirecionou sua prática. Abandonou o spray e passou a pintar, de forma autodidata, com tinta acrílica aplicada com pincel, trincha e rolo, aproximando-se de uma tradição mais clássica da pintura. A mudança técnica coincide com a escala. Naquele ano, pintou seu primeiro mural no Muro da Mauá, no Centro de Porto Alegre. Mas, foi em 2017, que realizou a primeira pintura de grandes proporções. Foi um prédio de quatro andares em Caxias do Sul, ao vencer um edital. O desafio era retratar o equilíbrio sustentável na cidade.
Hoje, Kelvin olha para trás e se dá conta de que fez mais de dez empenas. Entre elas, está a homenagem ao ambientalista José Lutzenberger, executada em parceria com o festival Virada Sustentável de Porto Alegre, em 2022. A obra com 50 metros de altura por 15 metros de largura, ocupa a empena do prédio do IPÊ Saúde, na esquina da avenida Borges de Medeiros com a avenida Aureliano de Figueiredo Pinto, no bairro Praia de Belas.
A produção de Kelvin se caracteriza por um trânsito constante entre o digital e o analógico. O processo começa no campo conceitual, passa pela montagem digital e retorna ao suporte físico em grande escala. “Eu gosto de levar as possibilidades do digital de volta para o analógico. A técnica de pintura é tradicional, mas o trabalho não é uma pintura tradicional. Tem uma construção digital ali”, explica. Essa lógica híbrida se expressa também na manipulação de imagens, elemento recorrente em sua linguagem.
Muralismo contextual

Mais do que a técnica, é a relação com o meio que define sua prática. Koubik se identifica como um “muralista contextual”. “Eu gosto de entender o lugar, as pessoas, o contexto. Nem sempre tenho o tempo que eu gostaria, mas esse é o caminho que me interessa”, afirma. Um exemplo é o painel da ex-ginasta Daiane dos Santos, primeira campeã mundial da ginástica artística brasileira. Com 900 metros quadrados, reproduzido no prédio da Fecomércio-RS, pertinho da rodoviária, ao lado do viaduto da Conceição, o mural foi concebido em um ano de pesquisa, executado em parceria com o festival Virada Sustentável em 2023.
A abordagem se evidencia em projetos como a recente residência artística na Serra da Capivara, no Piauí, por meio do Projeto Galerias. A iniciativa promove capacitações culturais pelo Brasil com diversas pessoas, mapeando alguns territórios em potencial. Lá, os artistas tiveram acesso aos sítios arqueológicos, a toda a história do parque e depois fizeram a imersão na comunidade que iam trabalhar.
Apesar da circulação internacional, com trabalhos realizados em países como Catar e Grécia, o artista mantém um vínculo forte com o país onde nasceu. “Eu posso estar em qualquer lugar, mas sou muito interessado no Brasil”, afirma. O prêmio internacional surge mais como consequência do percurso do que como ruptura. “Espero que se abram novas oportunidades, mas não mudo muito o meu comportamento. Sigo estudando e trabalhando”, simplifica.
Atualmente, Koubik divide-se entre projetos corporativos e iniciativas coletivas. Ao mesmo tempo, reconhece a necessidade de retomar a produção de ateliê. “Talvez eu precise dar mais atenção ao meu trabalho pessoal”, admite. Sem projeções rígidas, mantém uma postura pragmática: “vou equilibrando as coisas entre trabalho, estudo e projetos que fazem sentido”.

Fotos murais: Denison Fagundes / Divulgação





