Anatomia do medo: elaboração cenográfica de uma casa de horror

Por Renato Hack
arquiteto e urbanista* 

Durante o curso de arquitetura somos treinados a desenvolver edifícios funcionais, em que a unidade dialogue com o entorno e que suscitem o belo, porém pouco debatemos sobre a não individualidade ou o sentimento de pertencimento em locais com unidades habitacionais repetidas infinitamente, a sensação que não-lugares, como shoppings e aeroportos podem gerar, ou a sensação de insignificância que uma igreja gótica pode nos causar. Nos falta debater estética!

Vemos outros cursos discutirem ética em sua grade curricular, e nos afastamos de áreas ligadas à filosofia, aproximando-nos principalmente das exatas, e até das biológicas com discussões sobre neuroarquitetura, porém nos afastamos da estética moderna, que possui como ponto de referência Edmund Burke e sua obra de 1757, Uma Investigação Filosófica sobre a Origem de Nossas Ideias do Sublime e da Beleza. Entretanto, estou me adiantando, esses pensamentos surgiram depois, vamos retroceder.

 

Arquitetura de sentimentos

O que fazer quando você está cansado de trabalhos técnicos, os mesmos autores, e o mesmo ritmo? Não muito, se você não tiver apoio. Contudo, o que posso dizer é que tive uma orientação incrível.

Anatomia do Medo: Elaboração Cenográfica de uma Casa de Horror surgiu com a ideia de emular uma tradicional casa de horror estadunidense, tão comum nos filmes vindos de lá. Todavia, dois grandes desafios se impunham: bibliografia sobre o tema, o que foi sanado em grande parte através de conhecimento popular, através de blogs, visto o escasso material acadêmico existente; e como justificar a função social de tal projeto: a resposta estava nos debates sobre filosofia da arte. 

 

Medo estético e o prazer de sentir um calafrio

Enquanto escavava uma justificativa a qual sustentasse o projeto, localizei diversas pesquisas, as quais demonstram maior resiliência psíquica dos fãs de horror em situações perigosas e até catastróficas, como o isolamento social durante a COVID-19. Diversas pesquisas também explicam que vivenciar, por procuração, uma luta mortal contra um assassino pode nos armar com ideias e emulações de vivências, que nos permite racionalizar melhor em uma situação extrema. 

Essa consciência de perigo, ainda que se esteja em um local seguro, foi intitulada de medo estético por Júlio França, em paralelo ao termo art horror de Noël Carroll, ambos derivando diretamente ou indiretamente do que Edmund Burke chama de sublime, ou em suas próprias palavras: “o que quer que de alguma forma seja capaz de excitar as ideias de dor e perigo.”

 

Um cadáver arquitetônico como local

Por mais que você elabore, certas histórias são contadas pelo tempo. Seguindo clichês de filmes de horror, o qual foi parte do referencial projetual abordado, optou-se por uma edificação abandonada, o qual suas paredes parecessem sussurrar lamentos e tristeza. Para tal, foi optado como locação a Usina Hidrelétrica Gustavo Richard, popularmente conhecida como Usina do Sertão do Maruim, construção de 1910, situada no bairro Colônia Santana de São José (SC), que até então, estava abandonada desde 1972.

Esse trabalho, sem intenção, também registrou parte importante da história dessa edificação tombada, pois durante seu desenvolvimento, um contrato de revitalização foi assinado, esse sendo concluído, devolvendo funcionamento (e vida) a edificação, que antes registrada um histórico de abandono, roubo e depredação.

 

Materializando um fantasma

O desenvolvimento de Anatomia do Medo gerou transformações a partir de sua idea inicial. É comum o conceito tradicional da casa de horror se sustentar em atores, vide o único exemplo existente em Santa Catarina, a casa Portal da Escuridão, localizado dentro do parque Beto Carrero World. Dessa forma, a proposta foi mutando para algo mais expositivo, se afastando de jump scares (cenas comuns em filme de horror, na qual, algo ou alguém surge repentinamente na tela, com um som alto, assustando o expectador), e transicionando para elementos cênicos, de forma a dar protagonismo a arquitetura existente e ao mobiliário criado.

Como fio narrativo foi criado um personagem, William Gull, e tal como uma peça de teatro, uma história foi contada, através de painéis, altares, espaços imersivos que misturaram projeções, luminotécnico e experiencias auditivas, além de elementos que fomentassem o grotesco. 

Anatomia do medo é um trabalho que floresce em um vazio acadêmico, lembrando que há ainda muito a explorar. Há muitos espaços não abordados, como jogos de vídeo game, a exemplo da arquitetura nas franquias Wolfstein, Fallout e The Witcher; ou então debates sobre arquitetura fílmica, tais como a cenografia em obras de viagem espacial, cyberpunk, reimaginações medievais, e óbvio, sobre o horror, como por exemplo a pareidolia em casas assombradas.

A proposta deste trabalho não é um encerramento, porém jogar luz a uma pequena parcela, dos diversos espectros que a arquitetura pode nos oferecer, pois ela vai muito além de desenvolver projetos e erguer edificações. Pensando a arquitetura como movimento artístico, ela consegue assumir um papel esteticamente emocional, e sendo direcionada para o contexto de horror sua monumentalidade alcança o status expressivo de alegoria visual da vulnerabilidade e fragilidade humana. Através de profundidade, materiais e delineamentos, a arquitetura é provocadora, ela promove inquietações e transforma espaços em experiências sensoriais. O ambiente arquitetado pode não apenas amparar uma narrativa de horror, mas ser ele próprio aquele quem conta a história, assim como pode ser o monstro ou a lembrança que intimida e assombra.

 

* Renato Hack é arquiteto e urbanista, formado pela Unisul – campus Florianópolis. Esse artigo é um resumo do seu trabalho de conclusão de curso (TCC), produzido em 2022 sob orientação das professoras Eliane Baader de Lima, Dulce America de Souza e coorientação de Maria Eduarda Iesbich Arruda.  


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