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Projetada por arquitetos de Curitiba, estação brasileira na Antártica é reinaugurada

Por janeiro 14, 2020 Sem comentários

A Marinha do Brasil reinaugura, esta semana, a Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF). As novas edificações configuram uma área de cerca de 4.500 metros quadrados e substituem as instalações perdidas em decorrência de um incêndio em 2012. O projeto de arquitetura, vencedor do concurso internacional realizado em 2013, leva a assinatura da Estúdio 41 Arquitetura, de Curitiba (PR). A cerimônia de inauguração estava prevista para esta terça-feira, dia 14 de janeiro, mas foi adiada em função do mau tempo. A previsão é de que o evento aconteça no dia 15.

A partir do projeto, foi ampliada a capacidade de pesquisa da nova estação, passando de quatro para dezessete laboratórios no total, projetados e equipados para atender a uma multiplicidade de necessidades da comunidade científica brasileira, dentre os quais destaca-se: meteorologia, biociências, química, microbiologia, biologia molecular, bioensaios e de múltiplo uso.

O prédio principal da EACF está dividido em três grandes blocos, distribuídos da seguinte forma:

    • Bloco Leste: destinado às pesquisas, convívio e serviços da EACF. Nele, estarão 14 laboratórios, refeitórios, cozinha, setor de saúde, sala de secagem e oficinas;
    • Bloco Oeste: setor privativo e de convívio dos hóspedes da estação, onde estão instalados os 32 camarotes, uma biblioteca, uma academia e sala de vídeo/auditório. Em seus níveis inferiores, encontram-se os paióis de mantimentos e os tanques de água potável e para combate a incêndio; e
    • Bloco Técnico: responsável por todo o controle e demanda da rede elétrica, sanitária e automação da estação, além de possuir espaço destinado à garagem de viaturas. É composto, dentre outros, por estação de tratamento de água e esgoto, praça de máquinas, geradores, sistema de aquecimento de água, setor de tratamento e incinerador de lixo e paióis diversos.

A implantação é completada com as plantas de painéis fotovoltaicos, ao norte, e de turbinas eólicas VAWT a sudoeste.

Diferenciais de arquitetura e engenharia

“Um abrigo, um lugar seguro. A nova casa do Brasil na Antártica. Um lugar de proteção e reunião das pessoas para a produção do conhecimento científico”. Assim foi “encarada” a tarefa de projetar a nova Estação Antártica Comandante Ferraz pela equipe da Estúdio 41 Arquitetura.

A nova estação, que tem a capacidade de acomodar até 64 pessoas, representou um enorme salto na qualidade das instalações e na eficiência energética, para construção de uma plataforma ambientalmente sustentável, segura e confortável. Suas estruturas, concebidas em aço especial, e as suas fundações, foram dimensionadas para resistir a ventos de até 200km/h, sendo ainda considerados, além das baixas temperaturas e atmosfera agressiva, os efeitos de eventuais abalos sísmicos e ciclos de congelamento e descongelamento do solo antártico.

Em relação aos critérios de sustentabilidade, foram adotadas as seguintes premissas: estrutura elevada e envolvida por materiais isolantes que minimizam as perdas de calor para o meio ambiente; sistema de esgotamento sanitário que separa as águas cinzas das águas negras de forma que as águas cinzas possam ser reutilizadas após o tratamento; configuração de layout que permita reduzir ao mínimo consumo de energia em determinados períodos do ano; recuperação da energia térmica liberada pelos diesel-geradores; utilização de fontes de energias renováveis (eólica e solar) e utilização de sistema para a gestão técnica do prédio.

Com exceção do bloco destinado ao abrigo das máquinas e sistemas de produção de energia, os outros dois blocos da estação têm a forma prismática oblonga e está sobre pilotis a cerca de 2,5 m acima do solo. Esta configuração, além de minimizar o acúmulo de neve no seu entorno devido ao formato aerodinâmico, reduz a perda de calor para o meio ambiente tendo em vista que todo o seu entorno está isolado termicamente. Para maximizar a eficiência, buscou-se, ainda, utilizar o princípio das sucessivas camadas de proteção térmica. Além da camada isolante exterior de 220mm de espessura, há um espaço vazio entre esta e os módulos internos tipo contêiner que funciona como um buffer cuja temperatura será mantida a cerca de 10ºC, e isolamento do interior dos módulos, totalizando três camadas.

O sistema de energia da nova EACF é classificado como híbrido, constituído por três modais energéticos principais: solar, eólico e o diesel. Os modais energéticos solar e eólico são complementares ao diesel. O sistema é constituído por 30 módulos fotovoltaicos e por 8 aerogeradores, priorizando a instalação de turbinas eólicas que já foram previamente comissionadas na Antártica, para garantir a durabilidade e a performance do sistema. Um Sistema de Gestão Técnica Centralizada (SGTC) gerenciará tanto a oferta quanto a demanda de energia da edificação, constituindo o smart grid da Estação. A eficiência energética foi basilar na escolha do sistema de calefação principal da estação e dos sistemas elétricos de baixo consumo, como sistemas de iluminação a LED e motores de alto rendimento. A calefação principal da nova EACF é gerada por um sistema de cogeração (Combined Heat and Power- CHP) que recupera parte do calor dissipado para o ambiente, principalmente por meio do sistema de arrefecimento do motor e do calor proveniente dos gases de exaustão.

A capacidade de obtenção de água para consumo e posterior tratamento/reuso das águas servidas foi um dos principais limitadores para a definição da capacidade de suporte da Península Keller, onde está localizada a Estação Antártica Comandante Ferraz. Lá, existem dois lagos de degelo que fornecem água na forma líquida, capazes de atender a uma população máxima de 64 pessoas no verão e 35 no inverno. O número de pessoas que a EACF pode abrigar foi definido a partir desses parâmetros.

 

As etapas da obra

Em razão das condições severas do clima da região, as obras foram planejadas para ocorrer somente no período do verão antártico, entre os meses de outubro e abril. Dessa forma, foram necessários três anos para que as instalações da EACF atingissem o ponto que permitiu sua operação com segurança, o que ocorreu em março de 2019. No entanto, em função da necessidade do comissionamento e teste dos novos sistemas, além do adequado treinamento do Grupo-Base, optou-se pela inauguração no início de 2020, de acordo com a Marinha do Brasil.

A operação teve início em agosto de 2015, com a assinatura do contrato de construção com a empresa China National Electronic Imports and Exports Corporation (CEIEC). Nos meses de janeiro e fevereiro do ano seguinte, foram executados os serviços geológico-geotécnicos complementares na área da construção na Antártica, a fim de adequar o projeto às características geológicas da região.

Entre março e novembro de 2016, foram fabricadas, na China, as fundações e estruturas. De acordo com a Marinha do Brasil, nesse período, foi feita a montagem em Xangai de um modelo em escala natural das instalações (MOCKUP), de forma a verificar e solucionar possíveis problemas de projeto e construção. Na sequência, foram executadas as obras de fundação na Antártica. As edificações utilizam fundações em blocos de concreto, os quais, devido às dimensões e peso final, foram fabricados em peças prismáticas menores. Elas foram montadas diretamente nas cavas, cujas profundidades variam em torno de dois metros.

A estação foi fabricada e pré-montada, ainda na China, entre abril e outubro de 2017. Nessa fase, toda a estrutura e todos os módulos foram fabricados e pré-montados, para minimizar os riscos de falta de material e para reduzir a possibilidade de problemas durante a montagem. Em seguida, foram desmontados e preparados para transporte ao continente antártico. A montagem aconteceu em fases, entre dezembro de 2017 e abril de 2019. Na sequência foram iniciados os testes de aceitação, comissionamento dos sistemas e equipamentos e o treinamento do Grupo-Base “FERRAZ” para a operação e manutenção da EACF durante o inverno de 2020.

 

Ficha técnica:

Autores: ESTÚDIO 41 Arquitetura
Emerson Vidigal , Eron Costin, Fabio Henrique Faria, João Gabriel Rosa, Dario Corrêa Durce, Moacir Zancopé Jr.
Equipe: Martin Goic, Fernando Moleta, Felipe Santos, Alexandre Kenji, Rafael Fischer

Projetos Complementares:
AFA CONSULT
Estruturas: Rui Furtado, Filipe Arteiro; Geotecnia: Rui Furtado, Filipe Arteiro, Filipe Afonso.
Instalações hidrossanitárias: Paulo Silva, Alexandra Vicente.
Sistemas Mecânicos: Marco Carvalho, Isabel Sarmento, Tiago Teixeira; Instalações Elétricas: Raul Serafim, Luis Oliveira.
Telecomunicações: Raul Serafim, Luis Oliveira; Segurança contra Incêndio: Maria da Luz Santiago.
Resíduos Sólidos: João Oliveira; Acústica: Octávio Inácio. 

Consultores:
Envoltória: Stephan Heinlein, Geotecnia: Pedro Huergo, Arq. Guido Petinelli, Conforto e Energia (PETINELLI); Eng. Mecânico Eduardo Brofman, Conforto e Energia; Eng. Eduardo Ribeiro, Instalações; Arq. Carlos Garmatter, Segurança e Prevenção Contra Incêndio; Eng. Ricardo Dias, Estruturas; Eng. Bruno Martinez, Conforto e Energia (PETINELLI); Eng. Andre Belloni, Conforto e Energia (PETINELLI); Eng. Josiele Patias, Geotecnia.

Fontes: Marinha do Brasil e Estúdio 41. 

 

Galeria 1 – O projeto

Imagens: Reprodução | site e redes sociais Estúdio 41 

Galeria 2 – A estação

Imagens: Divulgação | Marinha do Brasil 

 

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