Smiljan Radić Clarke vence Prêmio Pritzker de Arquitetura 2026: arquitetura no limite da matéria

O anúncio do Prêmio Pritzker de Arquitetura 2026 consagra uma trajetória singular na arquitetura contemporânea. Nascido em Santiago, no Chile, Smiljan Radić Clarke desenvolveu ao longo de mais de três décadas uma prática marcada pela investigação constante, pela experimentação material e por uma relação particularmente sensível com o lugar. 

Filho de imigrantes — os avós paternos vieram da ilha de Brač, na Croácia, e os maternos do Reino Unido — Radić passou grande parte da infância desenhando. O primeiro contato com a arquitetura ocorreu aos 14 anos, quando um professor de arte lhe propôs projetar um edifício como exercício escolar.

Radić estudou arquitetura na Pontifícia Universidade Católica do Chile, graduando-se em 1989. Após a formação, aprofundou seus estudos em história no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza e passou a viajar extensivamente pela Europa — experiência que considera fundamental para ampliar sua compreensão da arquitetura para além da dimensão técnica. Filosofia, arte e referências literárias atravessam sua prática profissional.“As ideias habitam as coisas”, afirma o arquiteto. “Sempre tentei criar ambientes onde outros possam descobrir ideias emergentes.”

 

Arquitetura sem fórmulas

Ao contrário de muitos arquitetos contemporâneos, Radić evita desenvolver uma assinatura formal repetível. Cada projeto é tratado como uma investigação específica. Contexto, história e uso tornam-se partes estruturais do processo de projeto. O lugar é entendido não apenas como condição física, mas também como uma convergência de memória cultural, práticas sociais e circunstâncias políticas.

Para Alejandro Aravena, presidente do júri do Pritzker e vencedor do prêmio em 2016, essa postura define a singularidade da obra de Radić. “Em cada obra, ele responde com originalidade radical, tornando o não óbvio evidente e retornando aos fundamentos mais elementares da arquitetura.”

Outro aspecto fundamental de sua trajetória é a relação com a arte contemporânea. Desde o início de sua carreira, Radić mantém uma colaboração próxima com a escultora chilena Marcela Correa, com quem é casado. A presença da escultura e da matéria como elementos expressivos influencia diretamente sua arquitetura. Pedras, blocos maciços e materiais aparentemente brutos aparecem com frequência em seus projetos, muitas vezes assumindo papel estrutural ou simbólico.

Essa proximidade entre arquitetura e escultura também se manifesta em trabalhos realizados em parceria, como a instalação “O Menino Escondido em um Peixe”, apresentada na Bienal Internacional de Arquitetura de Veneza de 2010. Mais do que colaboração pontual, essa relação contribuiu para consolidar uma abordagem em que a arquitetura é pensada também como objeto material e experiência sensorial.

Vinícola Vik Millahue, foto cedida por Cristobal Palma para The Pritzker Architecture Prize

 

A poética da fragilidade

Um dos aspectos mais frequentemente destacados na obra de Radić é sua capacidade de trabalhar com a ideia de fragilidade. Seus edifícios muitas vezes parecem provisórios ou incompletos — como se estivessem em estado de transformação permanente. Ainda assim, essa aparente instabilidade esconde soluções construtivas extremamente precisas.

Segundo a justificativa do júri do Prêmio Pritzker, suas obras se situam “na encruzilhada entre experimentação material, memória cultural e incerteza”, produzindo edifícios que parecem temporários, mas que oferecem abrigo e uma experiência espacial profundamente sensível.

A relação com o território aparece de forma clara em muitos de seus projetos. No Restaurante Mestizo, inaugurado em 2007 no Parque Bicentenário, em Santiago, o edifício se abre para a paisagem com uma implantação horizontal e permeável. Grandes vigas de concreto repousam sobre blocos maciços de pedra, criando uma arquitetura simultaneamente pesada e aberta ao entorno.

Já na Casa Pite, em Papudo, concluída em 2005, o projeto responde diretamente às condições do litoral chileno. Implantada sobre um terreno rochoso voltado para o Pacífico, a casa organiza seus volumes para lidar com os ventos predominantes e com a luminosidade intensa da costa.  Em ambos os casos, a arquitetura surge menos como objeto isolado e mais como mediação entre construção, paisagem e clima.

 

Pite House, foto cedida por Hisao Suzuki para The Pritzker Architecture Prize

 

 

Restaurante Mestizo, foto cedida por Gonzalo Puga para The Pritzker Architecture Prize

 

Matéria, luz e experiência

Radić trabalha frequentemente com materiais elementares — concreto, pedra, madeira e vidro — explorando suas qualidades físicas e sensoriais. No pavilhão projetado para a Serpentine Gallery Pavilion, em Londres, em 2014, uma estrutura translúcida de fibra de vidro repousa sobre grandes pedras naturais. O contraste entre leveza e peso cria um espaço que parece ao mesmo tempo primitivo e futurista.

Outro exemplo é o Teatro Regional del Bío-Bío, inaugurado em 2018 em Concepción. O edifício é envolto por um envelope semitranslúcido que modula a entrada de luz e contribui para o desempenho acústico do teatro, transformando o edifício em um volume luminoso que muda de aparência ao longo do dia.

A relação com o tempo também aparece em projetos de adaptação arquitetônica. No centro cultural NAVE, em Santiago, Radić recuperou um edifício residencial do início do século XX danificado por um desastre natural. Em vez de reconstruí-lo completamente, o arquiteto preservou a estrutura existente e inseriu novos volumes dedicados a apresentações, ensaios e oficinas. Na cobertura, uma tenda inspirada em estruturas circenses cria um espaço aberto para eventos comunitários, introduzindo leveza e um caráter temporário à intervenção.

 

Pavilhão da Serpentine Gallery, foto cedida por Iwan Baan para The Pritzker Architecture Prize

 

NAVE, Centro de Artes Cênicas, foto cortesia de Cristobal Palma para The Pritzker Architecture Prize

 

 

Uma prática em constante investigação

Fundador do escritório Smiljan Radić Clarke Arquitectos em 1995, o arquiteto desenvolveu projetos culturais, edifícios cívicos, residências e instalações em diversos países da Europa e da América Latina. Em 2017, criou em Santiago a Fundación de Arquitectura Frágil, concebida como plataforma de intercâmbio público e arquivo de pesquisa.

Ao receber o Prêmio Pritzker de 2026 — tornando-se o 55º laureado da história da premiação — Radić reafirma uma trajetória que desafia fórmulas e reafirma a arquitetura como campo de investigação sensível sobre o espaço, a matéria e a experiência humana. 

 

Foto capa:  cortesia The Pritzker Architecture Prize.  

 

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