Notícias

Restaurado, casarão histórico de Florianópolis vai abrigar o Museu da Cidade

Por setembro 14, 2018 Sem comentários

Construída há cerca de 240 anos, a antiga Casa de Câmara e Cadeia de Florianópolis acaba de ser completamente restaurada. Trata-se de uma das mais antigas edificações da capital catarinense,  localizada em frente à Praça XV de Novembro, que passou por um trabalho minucioso de modernização e foi adequada para sediar o futuro Museu da Cidade. As obras foram acompanhadas por pesquisas arqueológicas e descobertas de peças e remanescentes de construções antigas.

A entrega foi formalizada nesta sexta-feira, dia 14, em cerimônia oficial realizada pela Prefeitura de Florianópolis. A partir de hoje, o Serviço Social do Comércio (SESC) de Santa Catarina tem 180 dias para a instalação do futuro Museu da Cidade, que deverá ser inaugurado em março de 2019. Com um lance de R$ 9 milhões, o SESC foi a instituição vencedora da licitação realizada pela prefeitura em 2015 para exploração do local pelos próximos 20 anos, com a proposta de contar a história política e econômica de Florianópolis, de forma interativa e dinâmica, utilizando tecnologias e mídias contemporâneas, nas versões português, espanhol e inglês.

A direção do SESC informou que a instituição iniciará a instalação do Museu de imediato, com a execução do projeto museológico, aquisição dos equipamentos, por meio de licitação, e contratação da equipe. Até a inauguração, prevista para março de 2019, serão realizadas programações pontuais para manter o espaço aberto e aproximá-lo afetivamente da população.

Restauração

Datado de 1771 e tombado como patrimônio histórico de Florianópolis em 1984, o casarão foi palco de momentos históricos da então chamada Vila de Nossa Senhora do Desterro, como posse de presidentes da Província e a entrega das últimas cartas de liberdade de escravos da capital, em 25 de março de 1888. Com dois pavimentos e de 865 metros quadrados de área, o casarão sediou festas e bailes memoráveis, serviu de cadeia e, mais tarde, foi sede do Tribunal de Justiça e Tribunal de Júri. Mais recentemente, até 2005, abrigou a Câmara de Vereadores de Florianópolis. Em 2007, foi interditado pelo Ministério Público por problemas de acessibilidade e de má conservação da estrutura.

O processo de restauração da antiga Casa de Câmara e Cadeia foi iniciado em 2009 pelo Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (IPUF), liderado pela arquiteta Cristina Piazza, diretora de planejamento do IPUF à época. Segundo ela, o projeto foi desenvolvido juntamente com o Grupo ArqRestauro, formado pelas arquitetas René Raquel Moz, Tatiani Pires Passos, Tatiane Contarine e por ela, com projeto do museu digital desenvolvido pelo designer Ricardo Zaccaro.

Após denúncias de irregularidades, no entanto, o processo foi suspenso e retomado no ano seguinte sob responsabilidade da Gerência do SEPHAN – Serviço do Patrimônio Histórico, Artístico e Natural, vinculado ao IPUF. A equipe técnica do Projeto de Restauro, desenvolvido entre setembro de 2010 e agosto de 2011, foi formada por Maria Anita Nunes, restauradora; pela arquiteta e urbanista Suzane Albers Araújo; por Rafael Haetinger Bernal, desenhista; e pelas acadêmicas de arquitetura Raissa Balthazar, Ronan de Souza Philippi Luz e Maiari Cruz Iassi. Clique aqui e confira o projeto na íntegra.

Os trabalhos de arqueologia iniciados nos primeiros meses de 2010, com a retirada do assoalho, foram continuados em outubro daquele ano, com a retirada de entulhos para verificação dos alicerces e outras estruturas. No mês seguinte foi feita a prospecção arqueológica de superfície por meio de Radar de Penetração de Solo (GPR), para verificação das estruturas soterradas em até 4,00 metros de profundidade, para fundamentar a terceira etapa, a de escavação.

As obras foram iniciadas em 2014, pela Concrejato Engenharia, empresa especializada na recuperação de estruturas e em restauro do patrimônio histórico e arquitetônico, que venceu a licitação para execução do projeto. Os trabalhos chegaram a ser interrompidos em meados de 2016 e foram retomados em maio de 2017.

Para a completa restauração, foram investidos R$ 7.593.805,29. Deste montante, R$ 4.461.047,73 foram repassados pelo Ministério da Cultura, através do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), por meio de convênio firmado com a Prefeitura, e o restante dos recursos são próprios da administração municipal. A intervenção está entre uma série de investimentos que o Ministério da Cultura (MinC), por meio do Iphan, vem realizando no Patrimônio Cultural de Florianópolis nos últimos anos. Uma delas é a restauração do Museu Victor Meirelles, já em fase de conclusão. Também está em curso a revitalização do Largo da Alfândega, cuja obra foi iniciada em agosto deste ano.

Renovação

A renovação da edificação foi completa: restauração da cobertura, dos revestimentos de paredes internas e externas, ornamentos, esquadrias, forros e pisos; novas instalações hidráulicas e elétricas; instalação de elementos de acessibilidade; e construção de uma unidade de extensão e apoio, anexa ao casarão, com elevador. O projeto também contou com a instalação de um sistema de ar condicionado VRF ecologicamente correto, de câmeras de segurança patrimonial e ainda de um sistema preventivo contra incêndio.

A diretora de Operações da Concrejato, Maria Aparecida Soukef, explica que o casarão permaneceu fechado por quase uma década e a integridade das estruturas estava comprometida, com parte da cobertura destruída, além de infiltrações e umidade. “Todo o telhado foi reconstruído com a avaliação de cada peça sendo reaproveitada ao máximo e substituindo as comprometidas. Nas fundações para criação do anexo novo, fizemos um trabalho menos invasivo para preservar os remanescentes arqueológicos”, conta a diretora.

Paralelamente à obra, deu-se continuidade às pesquisas arqueológicas. “Encontramos pinturas decorativas nas paredes e duas bocas de canhões no local onde foi construído o anexo. Como o imóvel foi concebido em um local aterrado, nas escavações localizamos também embasamentos e alvenarias de outra construção antiga. Tudo foi devidamente registrado, cadastrado e resgatado para preservar a memória do local”, diz Maria Aparecida.

“O grande feito desse projeto, além da possibilidade de utilizar técnicas e conceitos de restauração, foi conseguir implantar o programa de uso novo ao local, viabilizando a execução do projeto idealizado pelo Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (IPUF)”, acrescenta a diretora.

Preservação da memória

A cor rosa da fachada foi substituída logo no início dos trabalhos. Maria Anilta Nunes, restauradora do Sephan e uma das responsáveis pelo projeto, disse à época que a cor rosa não tinha qualquer fundamento histórico.  “Originariamente, a construção era em estilo colonial, branca com janelas verdes. No início do século XX, mudou do colonial para o eclético e passou a ser amarela, exatamente a mesma cor que passou a ter hoje”, argumentou.

Foram restauradas as pinturas do século XIX de uma coluna e de parte da abóboda do corredor principal, e conservado o arco em tijolos maciços desse mesmo corredor, no térreo. Os tijolos maciços da parte de cima da referida abóboda, já no primeiro andar, ficaram expostos à visualização; porém, protegidos por uma passarela de vidro temperado de 6 mm – que passou a fazer a ligação da antiga edificação à nova unidade de extensão e apoio construída, através do acesso do elevador instalado. As duas canhonetas encontradas no lugar durante as obras e restauradas pela Universidade Federal de Santa Catarina deverão compor o acervo do Museu da Cidade.

Prédio anexo

O projeto executado pela empresa Concrejato também previa a construção de um anexo de dois andares, de 196,50 metros quadrados de área total, aos fundos da antiga Casa de Câmara e Cadeia. Concluídos os trabalhos, o espaço servirá como unidade de extensão e apoio, onde vão funcionar os serviços administrativos e técnicos, cinco sanitários (um deles de uso exclusivo de pessoa portadora de deficiência), uma cafeteria e a acessibilidade ao elevador que foi instalado entre o anexo e ao prédio histórico.

 

Fotos: Divulgação

error: Para compartilhar esse conteúdo, use o link ou as ferramentas de compartilhamento do site da revista ÁREA e contribua para a valorização do jornalismo especializado.
X
X