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Coolhunting: o que o Covid-19 vai mudar, de fato, no design de interiores

Por maio 28, 2020 Sem comentários

Por Fah Maioli*
designer e trend analyst
Brasileira, Fah Maioli mora em Milão, na Itália, onde pesquisa e analisa tendências que dão inputs criativos para os segmentos da Moda, Design e Gastronomia há mais de 20 anos


Primeiro conceito: A história do mundo é frequentemente guiada por eventos inesperados, positivos ou negativos. Segundo conceito: O futuro é uma condição “não narrativa” (não pode ser contada), vivenciada como uma sequência de eventos. Assim, o futuro dificilmente se mostra à frente do tempo!

Estes dois conceitos se unem no coolhunting!

Para “domar” essa imprevisibilidade, algumas ferramentas de classificação, ou melhor, de observação, foram criadas. Entre elas, o COOLHUNTING. Ele é útil para nos dar um raio X na área em que temos um interesse estratégico. No nosso caso hoje, design, mas podemos fazer isso na moda, na gastronomia e até na indústria cosmética.

Por que o coolhunting e não outro sistema?
Por que o coolhunting identifica as tendências ou os movimentos que estão ocorrendo em nosso entorno, que chamamos de Zeitgeist, o mood cultural do momento. E traz sugestões sobre o que está para acontecer. Portanto, o que nós fazemos como analistas de tendências, é isolar os sinais que podem ser identificados para orientar nossas decisões. São eventos, estruturas e sinais emergentes que ainda não foram identificados pelas massas e por nossos concorrentes.

Coolhunting

Coolhunting, essencialmente, é um sistema de pesquisa e análise de tendências. Nesse contexto, TENDÊNCIAS são fenômenos sócio-culturais em evolução – rompendo o paradigma incorreto, que diz que tendências são cores, texturas, materiais etc. O coolhunting se preocupa em analisar fenômenos de comportamento individuais e coletivos, os quais, sedimentados no dia a dia, mudam paradigmas de pensamento e atuação no mundo.

Estamos vivendo, algo que De Martino, sociólogo e filosofo italiano, denominou um “apocalipse cultural e psicopatológico” que, inevitavelmente, vai nos conduzir a uma mutação antropológica. Cada apocalipse cultural – já vivemos tantos – determina o fim de um paradigma de vida e da correspondente organização cultural que temos na nossa sociedade em favor de um novo pilar de poder, de interesses, de ciência, de comportamento e de consumo. Esses cinco elementos já estão sendo modificados.

 

Comportamento

De frente a esse cenário, ocorrem dois tipos de comportamento sociológicos em nível macro: como a paranoia destrutiva e a coragem sistêmica – temas que renderiam outro artigo. Mas podemos afirmar, então, com absoluta certeza que alguns comportamentos individuais de agora já estão criando ações na vida concreta. Essas, por sua vez, vão determinar as mudanças sociais, modificando o modo de viver a vida como nós a conhecíamos desde então.

Mesmo que estejamos ainda no olho do furacão, podemos já perceber que as ondas da gloCalização (local) estão chegando para reconquistar todos os setores. Essa “quarentena de consumo” acelerou algumas mudanças na mentalidade dos consumidores, como uma crescente antipatia por modelos de negócios poluentes e uma maior expectativa em relação a ações direcionadas e sustentáveis.

Enquanto isso, muitas das mudanças que testemunharemos no sistema de moda e design – um salto na qualidade digital, um design sem mil lançamentos por ano, o declínio no comércio atacadista – são, principalmente, uma aceleração do inevitável: coisas que teriam acontecido de qualquer maneira se não tivesse a pandemia. Ela chegou para acelerar o processo.

 

“We need to do less,”
Miuccia Prada (Spring 2020).
“There is too much fashion, too much clothes, too much of everything.”

 

Essencialidade

Um grande comportamento pós-coronavírus: Essencialidade. Ele está eliminando excessos, dando força total ao essencial.

O que temos diante de nós é, seguramente, uma evolução do consumidor, que vai na direção que era já muito clara antes do contágio. Um consumo consciente, mas de hoje em diante, mais decidido e seletivo. Trocando em miúdos: tudo aquilo que é verdadeiro, sustentável e local, no estilo quilômetro zero, vai ter um crescimento exponencial.

Estamos verificando que produtos e serviços não essenciais são os mais afetados pela pandemia de coronavírus, enquanto os bens e serviços que podem ser consumidos em casa estão tendo um aumento gigantesco nas vendas. Essa crise nos obriga a mudar radicalmente o nosso comportamento em relação a todos os bens de consumo e poderemos descobrir que uma nova maneira de pensar e criar produtos, moda principalmente, é bem mais interessante. Um novo comportamento de consumo, mais alinhado ao Zeitgeist atual, será necessário ao nosso ser e estar no mundo.

A pergunta é: o que é essencial para a minha vida? 

E nesse contexto, da essencialidade, compartilho o que o maestro Giorgio Armani comentou na carta enviada ao setor no início de maio. Basicamente, ele disse para desacelerar e realinhar tudo; definir um panorama novo e mais significativo para a moda, oferecer coleções menores e shows mais íntimos, oferecer peças com elegância atemporal, ou seja, que vão durar ao longo do tempo. Essa é uma declaração muito potente. O caminho parte daqui.

O que o covid-19 muda de concreto no design das nossas casas?

Uma vez fora da crise de hoje, certas maneiras de gerenciar relacionamentos interpessoais, organizar espaços de trabalho, fazer uso de estabelecimentos comerciais e frequentar locais de cultura terão mudado irreversivelmente. Em outras palavras, a epidemia de coronavírus vai introduzir mudanças sensíveis e duradouras em nossos costumes sociais, modificando nossa conduta diária.

O mundo inteiro ao nosso redor vai sofrer os efeitos dessas mudanças e vai ter que evoluir de acordo: desde a nossa casa até os escritórios, as fábricas, as lojas, os restaurantes etc. vão ter que refletir as novas necessidades comportamentais. O design, nesse contexto, vai assumir um valor crucial, tornando-se uma ferramenta insubstituível para redesenhar o universo de objetos e espaços de acordo com as necessidades sociais emergentes e modificadas.

Nesse cenário, a permanência forçada de dois meses em casa com toda a família colocou a ideia de um sistema habitacional baseado, principalmente, no convívio como um ponto de encontro, após as milhares de atividades diárias realizadas fora, em crise.

Vimos o emergir de atividades diferentes que continuarão sendo realizadas em casa e cada uma exigirá acomodação adequada. E algumas coisas me ocorrem, que eu vivi pessoalmente, e outras já estou verificando em algumas empresas italianas.

São elas:

1 . Hall – Antes de tudo, será necessário reconsiderar a entrada / corredor como uma sala de filtros com o lado de fora, onde você pode deixar tudo o que trazemos do lado de fora, casaco, máscaras, sapatos etc. para descontaminar. Em um nível psicológico, serão áreas onde deixamos para trás o estresse antes de nos instalarmos em nossos espaços de vida. Penso que o hall de entrada vai voltar a ser o ponto focal da casa, mas não para ostentar e, sim, proteger.

2. Varandas – Precisamos ser capazes de nos movimentar na natureza e, por causa do COVID-19, aprendemos que nossas sacadas e quintais são os lugares mais seguros para fazer isso. Assim, recuperar ou construir um espaço verde – não importa o tamanho da casa – se tornará a norma. A jardinagem vai se tornar um hobby mais difundido em meio à pandemia do COVID-19. Assim, varandas e terraços serão reavaliados como uma oportunidade de viver algumas horas ao ar livre sem sair de casa. E como andam as coleções de mobiliário outdoor para pequenos espaços.

3. As cozinhas já são, provavelmente, o local mais importante de uma casa, mas com o desligamento temporário de restaurantes, vimos surgirem milhares de chefs de todos os níveis que curtiram preparar todas as refeições em casa. Então, a cozinha não vai mais ser apenas espaçosa o suficiente para cozinhar e conviver, mas também vai ter equipamentos de alta qualidade. Estamos voltando ao básico e pensando primeiro nas coisas que são necessárias para o conforto pessoal, não naquelas para impressionar as pessoas. Queremos uma cozinha para a nossa família!

4. Smart working. Quando retomamos o trabalho e a vida ocupada, com todas as mudanças entre casa e escritório desafiando o destino dos transportes públicos, aqueles que começaram a trabalhar com trabalho inteligente não vão mais desistir, ou, pelo menos, não completamente. Ninguém gosta da “normalidade” de engarrafamentos para ir e voltar do trabalho, não é mesmo? Ou do valor de poder almoçar em família do que ter que ir ao buffet a quilo mais próximo da empresa. Convenhamos, certas coisas perderam totalmente o seu valor!

5. O design ditará como usamos o nosso ninho para depositar nossas vidas, tanto psicológica quanto fisicamente, e aqui vamos querer evitar a ‘contaminação’ destes nossos santuários internos. O coronavírus trouxe a limpeza para o foco da casa, e isso nos faz acreditar que os construtores começarão a incorporar mais materiais antimicrobianos na construção de casas e prédios de apartamentos. Espere ver materiais como cobre e krion, um material que se assemelha a pedra natural, usado em bancadas e acabamentos de banheiros. A higienizaçào das nossas casas vai aumentar e já existem fabricantes italianos colocando no mercado sistemas inovadores nos guarda-roupas para isolar e higienizar as roupas de usuários individuais.

6. Materiais de revestimento. Devem ser facilmente laváveis e talvez o linóleo, que é feito de materiais completamente naturais, volte com força, pois diferentemente do vinil, ele realmente tem propriedades naturais para matar bactérias. Essa é uma das razões pelas quais tem sido usado em hospitais há anos. A cortiça, também completamente natural e também antibacteriana. Concreto e cerâmica, que são fáceis de manter limpos e, então, talvez voltem os pisos de concreto com tinta epóxi.

7. Os móveis também vão mudar. As mesas de escritório que encolheram ao longo dos anos, de 1,8m para 1,6m para, agora, 1,4m e menos, vão ter que ser reavaliadas, pois as pessoas não querem mais se sentar tão juntas. Aqui, novas regras para determinar uma área mínima por pessoa nos escritórios, bem como uma redução na ocupação máxima de elevadores e então, lobbies maiores na arquitetura comercial serão necessários para minimizar a superlotação.

 

Conselhos e Estratégias para a indústria moveleira

 Deixo cinco estratégias principais para empresas e profissionais de design que atuam nesse segmento:

  1. O instinto de sobrevivência

As empresas que sobreviverem à crise terão de realizar intervenções corajosas e rápidas para estabilizarem seus negócios principais antes de procurar novos mercados.

  1. A mentalidade de poupança

Para reconquistar um público desiludido, econômico e problemático, as marcas terão que encontrar maneiras de repensar sua missão e recuperar valor.

  1. Escalada digital

Agora, essa é a prioridade mais urgente em toda a cadeia do design.

  1. Redimensionamento darwiniano

“Adaptar ou morrer” será o novo mantra: para garantir seu futuro, as empresas devem repensá-lo agora.

  1. A inovação como um imperativo

Para mitigar o impacto da pandemia e se adaptar às mudanças na economia e nos consumidores, as empresas devem introduzir novas ferramentas e estratégias em toda a cadeia.

 


  • Nascida no Rio Grande do Sul, Fah Maioli vive entre Milão e Antibes. Possui Master in Gestione del Processo Creativo (IULM Milão), é expert em Trendsetting (IED Milão) e especializada em Design de Produto (UCS Brasil), Filosofia & Psicologia e, há mais de duas décadas, atua nos mercados italiano, brasileiro e americano, atendendo grandes estúdios, universidades e empresas mundialmente conhecidas nas áreas da Moda, Design e Gastronomia. Participou como palestrante no TEDx, no Mobile For Future, em vários eventos relevantes do mundo do Design. Criou o famoso programa de coolhunting INPUTS FROM FUORISALONE (em ação desde 2009), publicou o primeiro manual de Coolhunting em Português, bestseller na Livraria Cultura do Brasil e lançou, este ano, o primeiro Curso de Coolhunting On-line italiano.
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