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Casa de pedra: arquiteto utiliza técnicas artesanais da construção civil para erguer a sua casa de campo

Por abril 30, 2020 Sem comentários

Casa de pedra

Com aproveitamento do granito existente nas rochas naturais do terreno, casa feita no Sítio Passatempo, em Sorocaba, utiliza técnicas artesanais de construção civil

Por Silvia Penteado /especial ÁREA

O arquiteto Réggio Márzio Funari encontrou o lugar ideal para construir a casa de campo de seus sonhos em um sítio próximo à cidade de Sorocaba, no interior de São Paulo, a que deu o nome de Passatempo. As obras começaram em 1992 e, em 2017, exatos 25 anos depois, a obra estava totalmente terminada. Uma casa de 600 metros quadrados de área, construída com técnicas que vão da artesanal e secular cantaria à avançada tecnologia atual do concreto, ferro, vidro e madeira.

O projeto buscou equilibrar a leveza e o arrojo técnico da arquitetura moderna com o DNA das construções rurais paulistas do período colonial, “não só pela varanda na entrada ou pela forma curvada para baixo do seu telhado, mas também pela planta, que expõe com cristalina evidência o espírito da sociedade patriarcal da época, em que a sala era o epicentro da residência”. Para Réggio, a história da humanidade é contada pela arquitetura “e impõe-se, portanto, ao arquiteto a preservação e divulgação dos valores culturais da sua terra, ao mesmo tempo em que se obriga à inovação técnica e científica junto com a modernização das formas, cores e espaços”.

Dentre os materiais utilizados está o granito amêndoa Sorocaba, existente no terreno sob a forma de matacões. “A inexistência de mão de obra para trabalhar esse tipo de material obrigou-me à pesquisa e ao aprendizado da cantaria – como britar, tratar e assentar com precisão cada pedra da construção -, que fui repassando pessoalmente para pedreiros da região, com quem também aprendi muito”, conta. “Cerca de 100 quilos de granito com três faces acabadas gerava um único bloco. Foi um trabalho exaustivo, mas satisfatório.”

Os 600 metros quadrados da construção estão distribuídos em seis níveis, que se comunicam através de meios pisos, o que facilitou a adequação à topografia do terreno e permitiu transferências suaves entre os ambientes. O projeto visou a criação de espaços amplos que se prolongassem para o exterior, o que se deu com a eliminação de divisões internas “para somar” e panos de vidros nos fechamentos, com ligações sutis, pelo esbatimento dos pisos, do interior para o exterior, “para prolongar”.

Dessa forma os limites são desníveis, floreiras, pinturas e até elementos esculturais “como o insinuante lavabo social azul, com forma, volume e cor marcantes por fora e ajardinado e grafitado por dentro, situado entre o hall de entrada, a sala de jantar e a sala de estar. Do lado oposto ao lavabo, a sala de jantar é limitada por um imenso grafite de 18 metros quadrados representando a Santa Ceia, que inclui membros da família. Esse não é o único grafite da casa. Outras áreas receberam intervenções.

A sequência de arcos elípticos, de estrutura reversa, que suporta o telhado, à frente da varanda, delicadamente “flutuando” sobre o gramado, por meio das arestas que lhe tocam, é parte da estrutura da casa, mas também do jardim. Com as mesmas intenções, as esbeltas vigas curvas de ipê (projetadas e prensadas no local), medindo cerca de 12 metros, se apoiam nesses arcos por meio de quase imperceptíveis pinos de aço, dispensando as convencionais tesouras.

Há vários elementos criados/desenhados pelo próprio arquiteto, como lustres e luminárias, uma imensa mesa de jantar com quatro metros de comprimento e 1,20m de largura, feita com uma única prancha de madeira de mais de meia tonelada, além de uma mesa de centro na sala de estar, também feita com uma prancha única de madeira, com cinco metros de comprimento e 0,95 m de largura.

Os sofás, desenhados por Funari, foram feitos sob medida para se adequarem às curvas e inclinações das paredes de granito. Montados sem pés, eles parecem flutuar no ar em volta da escultural lareira: uma calota de granito, parte de um matacão bem maior, no qual o arquiteto conseguiu visualizar uma simetria muito adequada antes de subdividi-lo. Com o desenho esférico da coifa, que concebeu com retalhos de cobre, latão e aço inoxidável, numa forma de continuidade com o granito, de que manteve a parte externa natural, a interna entalhada para as funções e a aba frontal  polida, criou outra escultura que, além de tudo mostra a beleza do granito em três formas de tratamento.

A adega ocupa um generoso espaço totalmente de granito, provido de um lavabo e uma pequena “cozinha suporte”. Tem o teto grafitado com temas mitológicos, controle de umidade, ventilação especial e iluminação com arandelas que lembram tochas (Funari as desenhou com modernidade, buscando esse efeito por meio do latão e do cristal). Suas paredes e pilares, às vezes com formas arredondadas e feitos de blocos de granito, que exigiram o apoio de três ou quatro homens, expõem, mais que a dificuldade técnica na busca de um acabamento impecável com materiais rudes, mas principalmente a riqueza de detalhes que o arquiteto impõe em cada efeito buscado nas suas linhas e formas.

Ao fundo, num ambiente delimitado por paredes curvas que suportam uma abóboda formada pela união de outras duas, menores e de tamanhos distintos, um bar se insinua por uma inusitada mesa de cristal giratória. Ela é apoiada por uma única barra de aço que, em balanço, brota, numa curva absolutamente concordante com a da parede que a suporta. Dessa forma, pode ser apreciada de qualquer ângulo, uma pia esculpida no mesmo granito da parede como se dela fizesse parte, concebida em delicadas formas curvas e texturas.

No lavabo da adega, um lavatório de uma tonelada com linhas que acompanham as paredes texturadas expõe o rústico e a nobreza do granito lapidado. Nesse ambiente há, ainda, um painel de pastilhas de vidro (na única parede que não é de granito em toda a adega) que sugere a criação do vinho pelo trabalho do sol, que está representado por uma sugestiva e reluzente luminária com espelho (também concebida por Funari) situada sobre o lavatório. Em toda a obra ficam expostos, com muita clareza, procedimentos construtivos que denotam o minucioso planejamento e detalhamento prévio da obra, especialmente nesse caso em que os procedimentos relativos às instalações hidráulicas e elétricas, assentamento de batentes, caixilhos etc. têm que crescer com a obra, posto ser impensável o rasgo e posterior restauro das paredes para tais procedimentos, corriqueiros em obras comuns.

A implantação do projeto levou em consideração a paisagem de uma forma geral e seus elementos em particular. Assim, um quase centenário jatobá foi tratado e se tornou o centro do espaço gourmet, determinando o dimensionamento e mesmo o desenho das áreas externas contíguas à casa. Dotado da infraestrutura necessária para reunir um grande número de pessoas, ele exibe um muro de granito, que é um gracioso e imponente tronco de cone que se presta, também, ao assento dos convivas. Esse espaço está situado entre a casa e a área recreativa que é dotada de um pequeno campo de futebol, uma piscina e um vestiário, instalado junto a uma sauna completa, bem próximos de um córrego e de uma cachoeira. Nos jardins, que dominam toda a área do sítio, é possível encontrar diversos tipos de árvores frutíferas*.

Técnicas

Para a construção da casa, Réggio Funari usou a cantaria, com procedimentos e ferramentas primitivas, tais como ponteiros, talhadeiras, unhetas, pixotes, macetas, que às centenas eram afiadas toda semana a fogo numa forjaria montada no canteiro de obras para essa finalidade específica. Também utilizou a carpintaria estrutural curva, com a colagem de peças sob pressão, em prensa de cerca de 13 metros de comprimento, construída especialmente para esse fim, além dos procedimentos usuais da construção civil.

Destaque para a utilização da argamassa projetada, numa versão moderna da “taipa de sopapo ou pau a pique”, que se prestou com muita eficiência para a execução de alvenarias com curvas, curvas esféricas, horizontais, verticais e ou inclinadas, como a escultura que é o lavabo azul.  Uma armação de ferro de dupla face foi construída com as formas criadas e com os detalhes importantes do ponto de vista arquitetônico em substituição à armação de galhos secos do “pau a pique” e os espaços preenchidos com argamassa a base de cimento, arremessada da mesma forma que o barro o era.

O projeto foi inteiramente desenvolvido pelo arquiteto-proprietário e transformado em realidade com trabalho feito à mão por artesãos treinados pessoalmente por ele. Hoje, é uma referência arquitetônica na região.

 

 

( * ) abio, açaí, amora, abacate, araçá, cacau, castanha portuguesa, castanha do Pará, caju, café, jaca, manga, pera,ingá, carambola, jatobá, laranja, mexerica, jaca, cajá, tamarindo,cambucá, nós pecã, lichia, goiaba, jabuticaba, abricó da praia, ingá, limão, coco, jambolão, sapoti, pitanga, pitaia, romã, maracujá, cereja, caqui, jenipapo, fruta pão, fruta do conde, tucumã, nêsperas, mangustão, uvaia, acerola, umbu, cedro, ipê, pau Brasil, angico, araucária.

 

 

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