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Arquitetura e urbanismo perde Manoel Coelho: “o que faz mudar a cidade é a vontade política”

Por março 5, 2021 Sem comentários

Vontade política. Essa é a “mágica” transformadora das cidades, na opinião de Manoel Coelho. “Já mostramos que é possível”, defendeu. O arquiteto e urbanista catarinense, nascido em Florianópolis em 1940, faleceu ontem (4/3) em Curitiba (PR), vítima de um câncer. A capital paranaense foi a cidade que ele escolheu para viver, onde se formou em Arquitetura e Urbanismo e onde fez história.  Mas seu legado extrapola as fronteiras paranaenses, estendendo-se também por Santa Catarina, de onde nunca se afastou.

Resgatamos aqui a entrevista concedida por ele em 2014 para a publicação Grandes Nomes da Arquitetura Catarinense | Planejamento Urbano, produzida pela Santa Editora – editora da revista ÁREA – em parceria com a AsBEA/SC. A publicação foi lançada em dezembro de 2015, apresentando entrevistas com oito arquitetos e urbanistas apontados pelo conselho editorial como destaques em planejamento urbano.  Clique aqui para acessar a publicação na íntegra.

 

Otimismo para mudar

Vontade política. Essa é a “mágica” transformadora das cidades, na opinião de Manoel Coelho. “Já mostramos que é possível”, defende.

Nascido em Florianópolis em 1940, o arquiteto e urbanista Manoel Coelho fez história em Curitiba, onde concluiu sua graduação na primeira turma do curso de Arquitetura da Universidade Federal do Paraná. Recém-formado, em 1967, ingressou no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (IPPUC), criado dois anos antes. Ao lado do arquiteto Jaime Lerner, que veio a presidir o instituto em 1969, participou ativamente do processo de planejamento urbano da capital paranaense. Quando Lerner assumiu a prefeitura, em 1971, Manoel Coelho continuou ao seu lado, implementando cada uma das ideias inovadoras almejadas. Na terceira gestão do colega, foi alçado ao cargo de secretário municipal de Desenvolvimento Urbano. A fórmula que promoveu significativas transformações na cidade e que se tornou referência nacional e internacional foi aplicada pelo arquiteto catarinense também em Criciúma, no final dos anos 1970. Na época, atendera a um convite do ex-colega de faculdade Altair Guidi, que estava prestes a assumir a prefeitura. “Ele estava a fim de marcar presença com obras muito legais para a cidade. Levamos sorte”, afirma.

 

GNAC / Com apenas oito anos de prática profissional, o senhor assumiu a coordenação do projeto de Desenvolvimento Urbano em Criciúma. Antes disso, já havia iniciado a implantação de uma proposta urbanística exemplar em Curitiba, no Paraná. Qual era a expectativa?

MC // Um dia, eu estava em meu escritório aqui em Curitiba, quando o Altair Guidi (arquiteto, atual deputado estadual) telefonou para me convidar a desenvolver uma campanha para sua candidatura à prefeitura de Criciúma. Durante a faculdade, ele acompanhava o meu trabalho de comunicação visual e perguntou se eu topava. Fui conhecer Criciúma, uma cidade onde a exploração do carvão era bastante presente, as ruas não tinham asfalto e era tudo cinza, com cheiro forte de enxofre. Aí, voltei para Curitiba e bolei a campanha, centrada na frase “vamos dar cor a Criciúma”, e deu certo. Eu também fiz algumas propostas para a cidade para, caso ele ganhasse, logo implementar. Ele venceu e eu fui trabalhar lá.

GNAC / Esse trabalho preliminar ajudou a agilizar a implantação dos projetos?

MC // Desde outubro, quando foi eleito, já iniciei a preparação dos projetos. Então, quando ele tomou posse, em janeiro de 1977, a gente já tinha uma série de propostas em andamento. Poucos dias depois da posse, eu apareci em Criciúma com a minha equipe com vários projetos, fotos e maquetes, e fizemos uma exposição na praça Nereu Ramos, que é a praça central da cidade. O título desse trabalho era “Criciúma de amanhã”. Todo um esquema de marketing, sendo eu um simples arquiteto (risos). Foi legal ter todas as ideias na praça principal, mostrando e querendo consultar a população sobre o que ela achava dessas propostas.

GNAC / Essa preocupação com a participação popular era uma inovação.

MC // Achei uma maneira muito democrática, o povo na praça o dia inteiro. Havia lá um livro, no qual eles podiam registrar suas opiniões. Sem assembleísmo, sem qualquer preocupação política; simplesmente mostrando as ideias que a gente tinha para a cidade.

GNAC / O plano era bastante abrangente. Quais foram os principais pontos?

MC // Eu acabava de ter trabalhado em Curitiba em todo o processo de planejamento. Então, tudo o que eu tinha aprendido e participado e que tinha dado certo procurei aplicar em Criciúma, que era uma cidade muito carente de projetos urbanos. Todos os prefeitos, até então, eram essencialmente políticos e o Altair Guidi, um arquiteto, estava a fim de marcar a presença e fazer obras muito legais para a cidade. Levamos sorte. E também porque o presidente (João) Figueiredo (1977-1985) resolveu juntar as eleições e prorrogaram os mandatos dos prefeitos por mais dois anos. Então, o Guidi ficou seis anos e ganhamos mais tempo para propor ainda mais coisas. Tínhamos feito o Parque Centenário, na área antes ocupada pelo aeroporto, o qual foi transferido para onde hoje é o município de Forquilhinha.

Na época, também criei a avenida Centenário, ambos em alusão à comemoração dos 100 anos da cidade. Até nome eu dava para as coisas (risos). Assim como em Curitiba tínhamos promovido o fechamento da rua XV de Novembro, no Centro, tivemos a ousadia de fechar as ruas no entorno da praça Nereu Ramos, com a criação de vários calçadões. No início, muitos comerciantes foram contra, mas depois de tudo implantado, com luminárias, mobiliário urbano, a população aceitou e aplaudiu.

GNAC / Quais outros ganhos para Criciúma?

MC // No entorno do parque Centenário, fizemos um prédio para a prefeitura municipal. Houve um concurso de arquitetura para a criação do monumento do centenário e eu ganhei. Criei outro equipamento que era um centro cultura, com teatro para 800 pessoas, salas para aula de dança, biblioteca para cidade, coisas que a cidade não tinha. Elaboramos projetos de escolas, de postos de saúde. E tudo obras coloridas, sempre usei muita cor. Paralelamente, fizemos um plano urbano, de zoneamento e todo o sistema de transporte urbano, com terminais, terminal central, percorrendo a avenida Centenário. Enfim, atacamos todas as linhas importantes da cidade. Quando o mandato foi prorrogado, criamos um centro esportivo no parque Centenário, com pista de atletismo oficial e um ginásio de cinco mil metros quadrados.

GNAC / A cidade foi equipada em apenas seis anos?

MC // Mostramos que é possível. Até hoje dá para ver isso. Por que conseguimos fazer isso lá e por que Curitiba também fez? É tudo uma questão de vontade política. Não quero dizer que o prefeito tem de ser arquiteto, mas é porque o arquiteto está desprovido das ambições políticas e, quando eleito, ele tem uma gestão voltada para resolver os problemas da cidade e não só pensando nas próximas eleições.

GNAC / Quais eram os conceitos gerais desses projetos, em Criciúma e em Curitiba?

MC // De modo geral, é o que o arquiteto aprende na sua formação: respeitar a população, respeitar a paisagem urbana e promover uma integração entre a cidade, os espaços urbanos e seus habitantes, visando o conforto da população. A gente só não tem o poder de interferir A gente não tem o poder de interferir nas construções que se fazem nas cidades, tanto de forma espontânea pelas pessoas como pelas construtoras empreendedoras que semeiam pela cidade edificações que não acrescentam muita qualidade à paisagem existente. Eu acho que essa é a grande responsabilidade do arquiteto. É para se pensar: “o que é melhor para a cidade? uma região com araucárias ou um condomínio cheio de prédios?”

GNAC / Esse é um diferencial do campus da Universidade Positivo, em Curitiba, projetado pelo senhor, certo?

MC // Sim. Aumentamos o lago, que era bastante pequeno, e preservamos toda a vegetação, a mata ciliar que ali tinha. E até plantamos mais coisas. Estamos ainda plantando lá. Só lamento que a 500 metros da universidade surgiu uma barreira de prédios, numa área onde antes era um bosque, e ainda bloqueando uma vista linda. E ainda com prédios pintados! Hoje ainda está bonitinho, mas daqui a dois ou três anos, estará tudo escorrendo. É horrível isso. Prédio tem que ter revestimento. Deveria ser lei isso.

GNAC / O que vem dando certo em Santa Catarina, na sua opinião?

MC // Estive em Blumenau recentemente e vi que é uma cidade onde as ciclovias funcionam há tempos. Em Balneário Camboriú, eles tiveram a ousadia de simplesmente tirar a faixa de estacionamento dos carros para implantarem uma ciclovia paralela à praia. Mas não é em todo o lugar que a bicicleta dá certo. É preciso ter uma visão de rede de ciclovias que permita se fazer um roteiro pela cidade. É essa visão do conjunto, não só em relação ao trânsito, à mobilidade, mas também na saúde, na educação, na preservação do meio ambiente. Há de se implantar projetos sólidos. Em Curitiba, há 34 parques. Só o Barigui, outro dia, recebeu 85 mil pessoas! É dez vezes uma Joaquina (uma das praias de Florianópolis). Isso é difícil de destruir. Os administradores conseguem acabar com o transporte urbano porque não investem no ônibus, no transporte coletivo, e ficam abrindo binares para mais carros, para atender uma coisa individual. A cidade não deve mais investir nisso ou no asfaltamento de ruas para os carros. Deixa assim. Até que o cara deixa o carro e dá outro jeito.

GNAC / Em Santa Catarina, o senhor também desenvolveu um plano de revitalização para São Joaquim, contratado pela Secretaria de Desenvolvimento Regional. Por que não deu certo?

MC // A cidade é notícia nacional em todos os invernos e não sabe tirar partido disso. Eu fiz um plano legal, com pé no chão, para ser implantado em várias etapas, sem grandes custos. O secretário entregou para a prefeitura, mas, quando ele saiu do cargo, não fizeram mais nada.

GNAC / O senhor fez diferença no planejamento dessas cidades. Falta hoje o investimento em uma boa equipe?

MC // Os caras não querem. Eu sempre digo que estou à disposição, mas não me chamam (risos). Não só eu, mas toda a equipe do Jaime (Lerner) está aí, trabalhando, mas ninguém os chama. Se o prefeito é medíocre e não tem a humildade de reconhecer suas limitações, ele se cercará de gente também medíocre para não se sentir diminuído. É uma coisa caótica.

GNAC / Apesar de identificar um triste panorama na política brasileira, o senhor prefere se manter otimista. Por quê?

MC // Por que eu não sou derrotista. Gosto de pensar que o ser humano não é tão bobo a ponto de promover a sua própria extinção. Acho que uma hora o ser humano vai dar um jeito nas coisas, não deixará degringolar. É no que a gente se agarra.

 

“O papel do gestor municipal é justamente captar os anseios da população, que revelam a vocação da cidade. Os administradores políticos, em sua maioria, não conseguem ver que, aqui em Curitiba, o cara que propôs isso está na glória no mundo inteiro. E o cara não vê que isso é possível. É o que o fará ganhar uma próxima eleição pelo
bom e sério trabalho que fez para valer.

Ganhará as eleições com louvor e não por falta de opção. É duro ter de escolher o menos pior ao invés do melhor. Mas não é para fazer mil assembleias. Em Curitiba, para atender ao Estatuto das Cidades, estão fazendo reuniões há dois anos. Para saber o que a população quer não precisa de tudo isso. Qualquer lugar com um prefeito que entenda isso, sempre dará certo.”  – MANOEL COELHO 

 

Entrevista: Verônica Tomasoni
Edição e texto final: Letícia Wilson
Fotografia: Marcelo Stammer
Publicação: Grandes Nomes da Arquitetura Catarinense | Planejamento Urbano
Edição: Santa Editora (2015)

Clique aqui para acessar a publicação na íntegra.

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