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Arquitetos do Sul relatam “apagão” de materiais da construção civil

Por dezembro 1, 2020 Sem comentários

 

Materiais em falta, entregas adiadas, obras a todo o vapor. O final do ano de 2020 está sendo atípico, em todos os sentidos. Tradicionalmente, o segundo semestre é de alta demanda para o setor de construções e reformas. Mas este ano, a realidade tem surpreendido. A partir da retomada das atividades do setor, após a paralisação necessária no início do ano em função da pandemia de coronavírus, os trabalhos seguiram em ritmo intenso para atender ao aumento do interesse das pessoas pela qualificação dos espaços de morar. As indústrias, contudo, ainda não estão conseguindo acompanhar essa aceleração.

Arquiteto Vicente Brandão, presidente da AsBEA-RS

“Nosso setor está sentindo a segunda onda da pandemia, que é o reflexo econômico. E não podemos nos queixar: o mercado aqueceu e está procurando profissionais da área da arquitetura para novos projetos e obras. Ao iniciarmos a etapa de orçamentos, cotações de materiais e planejamento, dois indicadores importantes foram percebidos: o aumento de preço e a falta de estoque de materiais”, afirma o arquiteto e urbanista Vicente Brandão, presidente da regional gaúcha da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBEA). Segundo ele, o aço praticamente dobrou de preço. Fios elétricos e outros materiais que possuem componentes importados também apresentaram aumento significativo, em função da alta do dólar.

A disponibilidade dos materiais é o indicador que tem provocado maior impacto. “A pandemia do Covid represou as obras no meio do ano e com a volta das atividades, os materiais sumiram dos estoques. Como havia incerteza dos rumos econômicos e do prolongamento desta situação atípica, muitas fábricas esperaram para ver o que estava por vir. E este futuro chegou antes do previsto, demandando insumos para nossos projetos que não podem parar”, destaca o presidente da AsBEA-RS.

Para o arquiteto e urbanista Keiro Yamawaki, sócio da ArquiBusiness, de Curitiba (PR), o momento é de alta demanda e “apagão geral” da produção. “O prazo para entrega de cimento é de 20 a 30 dias; de material hidráulico, é de 45 dias. A falta de alumínio está provocando muita dificuldade no setor de esquadrias e no de elevadores, por exemplo. O aço está realmente inflacionando o mercado. Além de aceitar o preço, ainda é preciso aceitar o prazo de entrega”, revela. Segundo ele, as incorporadoras clientes da empresa tiveram de reprogramar os lançamentos dos empreendimentos em virtude desse cenário. “Uma delas, inclusive, corria o risco de ser multada pela prefeitura por não conseguir fechar o terreno porque não conseguia receber os tapumes”, conta.

 

Alta do dólar e lockdown

Arquiteto Leonardo Hauer, presidente da AsBEA-PR. Foto Gerson Lima

A percepção de falta de materiais é muito evidente para os arquitetos, pontua o arquiteto e urbanista Leonardo Hauer, presidente da AsBEA-PR. “A alta do dólar e lockdown fizeram com que isso acontecesse”, avalia. Ele argumenta que o lockdown fez com que muitas indústrias tivessem a produção paralisada ou radicalmente diminuída, tanto no Brasil quanto no exterior, o que, aliado com a classificação da construção civil como atividade essencial, ou seja, praticamente não parou, fez com que os estoques ficassem muito baixos. “Ainda sobre o lockdown, a paralisação de muitas outras atividades relacionadas à importação também fez com que os estoques caíssem. Agora juntemos isso tudo com a demanda das famílias por habitações maiores ou ‘melhores’, pois se é pra ficar em casa, que seja com mais qualidade de vida”, acrescenta o arquiteto.

Em virtude dessa valorização dos espaços de morar, o segmento de Arquitetura de Interiores apresentar um aquecimento atípico desde o mês de agosto, de acordo com o arquiteto e urbanista Carlos Lopes, presidente da AsBEA-SC. “A arquitetura de interiores teve um impulsionamento repentino, não previsto pelo mercado, de forma que diversos setores produtivos ficaram desprovidos. Além de faltar insumos, faltou também mão de obra”, destaca.

Ele avalia que além das iniciais paralisações e da redução das equipes nos espaços de trabalho para evitar a proliferação de coronavírus, uma outra causa ainda pouco comentada é a necessidade de “revezamento” dos pais para atender as crianças em casa, em função da suspensão das atividades presenciais nas escolas. Essas causas contribuíram para provocar o déficit de pessoal em diversos setores da indústria, serviços e, também, nos canteiros de obras. A consequência é o alongamento dos prazos em função do atraso das entregas. “No final de outubro, já não se conseguia marmoraria e marcenaria que realizassem entregas ainda neste ano”, exemplifica Carlos.

 

Reprogramação e novos fluxos

Edilaine Pelentir e Keiro Yamawaki, da ArquiBusiness.

Os profissionais do setor tiveram que contar com a compreensão e a paciência dos clientes nessa “segunda onda da pandemia”, como classificou o presidente da AsBEA-RS. “Sentimos os impactos no bolso e no atraso das obras”, afirma a administradora de empresas Cristina Mesquita, sócia da Reforma.com, especializada na execução de obras de alto padrão na Grande Florianópolis (SC). Para ela, o fechamento de muitas fábricas e a dificuldade de entrada de produtos importados provocaram um “reflexo desastroso nas obras”. “Nossos clientes tiveram muita dificuldade, principalmente na compra de revestimentos cerâmicos e de itens de iluminação. Além disso, o preço de alguns itens subiu absurdamente, como foi o caso dos materiais elétricos”, revela.

Em Curitiba, a ArquiBusiness encontrou uma maneira de enfrentar a situação para que as incorporadoras clientes não precisem adiar ainda mais o lançamento de seus empreendimentos. “Invertemos o planejamento. Aceleramos os projetos para que possam ser quantificados antes para que o setor de compras das construtoras possam antecipar os pedidos. Daí a importância do BIM, que garante maior assertividade ao projeto para que possa ser ‘orçável’ o quanto antes”, afirma Keiro, sócios da empresa em parceria com Edilaine Pelentir. Assim, o projeto executivo segue para o setor de compras antes mesmo da aprovação na prefeitura. “Por mais burocrático que seja o processo de obtenção do alvará, a orçamentação e o planejamento de compras precisas ser antecipados, o que afeta o nosso fluxograma de projeto”, explica.

Ainda que o ano de 2021 seja uma “incógnita”, como afirma o presidente da AsBEA-SC, Carlos Lopes, a expectativa é de que a tendência de crescimento do setor se mantenha. “As pessoas têm, hoje, uma consciência diferente em relação ao morar, estão refletindo mais sobre a qualidade dos espaços onde vivem”, considera. Além disso, os investimentos já anunciados por construtoras e incorporadoras igualmente geram uma perspectiva de expansão. “Esperamos que a indústria utilize o final de ano, época onde normalmente são oferecidas férias coletivas, para se adaptar e entregar os produtos dentro dos prazos e para equalizar os preços ao que era praticado anteriormente”, pontua Vicente Brandão, presidente da AsBEA-PR.

 

Imagem destaque: reprodução Reforma.com de uma obra executada pela empresa em Governador Celso Ramos (SC).

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