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A nova fase de Alexandre Freire, contemplativo, abstrato e anacrônico

Por fevereiro 28, 2021 Sem comentários

O contato entre as proas dos barcos tende a um limite matemático infinito, uma abstração. A sobreposição das sombras tem em comuns aspectos da vida cotidiana, preferências pessoais, princípios morais e objetivos compartilhados. É assim que Alexandre Freire descreve a obra Amor, da imagem em destaque, produzida em 2020 como uma reflexão sobre o conceito de “amor” como escolha e como relação pura entre indivíduos. Na definição das cores, ele estabeleceu uma provocação “a conceitos absolutos e excludentes de gênero e família”.

Essa obra simboliza bem a nova fase da carreira do artista, que se diz mais abstrato, contemplativo e anacrônico. E resulta de uma decisão tomada em 2019, quando retomou sua pesquisa artística após uma parada obrigatória em 2015 para o tratamento de um câncer. “Depois da doença, as prioridades mudaram e eu passei a dar mais atenção e tempo à minha vontade artística e à pesquisa”, conta Alexandre. Segundo ele, a nova fase é um resgate de referências do início da sua carreira artística, em 2003, e também de experiências da sua infância, no Rio de Janeiro, todas ligadas ao modernismo. “Morávamos perto do Museu de Arte Moderna e meus pais me levavam para brincar nos jardins do museu”, revela. Carioca de nascimento, Alexandre também morou em Manaus e em São Paulo antes de fixar residência em Florianópolis, onde vive desde 1992.

“A pesquisa atual busca explorar, utilizando como ferramenta a sobrevivência da linguagem moderna, o estado contemporâneo em suas relações líquidas e efêmeras”.
Alexandre Freire

Traços arquitetônicos

Em Florianópolis, Alexandre Freire formou-se em Arquitetura e Urbanismo, pela Universidade Federal de Santa Catarina, em 1998, e, desde a época de estágio no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), teve sua pesquisa e atuação influenciadas por tendências da arquitetura moderna, especialmente por trabalhos de Villanova Artigas e Affonso Reidy.

Em 2003 iniciou carreira artística, de forma autodidata, com pinturas que retratam uma memória da arquitetura urbana e social de um período de juventude, com cores e temas relacionados a cidades litorâneas. A pesca artesanal, a paisagem urbana e o retrato do cotidiano, em linhas fortes e em colorido vibrante, tornaram suas obras marcantes e valorizadas desde a primeira exposição, a “Bem Bem Físico”, em 2003, na Galeria de Arte da UFSC. Dois anos depois, ele lança a “Aqui e Ali”, com “cenas de uma metropolezinha à beira-mar”, como ele descreve, realizada na Confraria das Artes. Esse foi o projeto mais explorado pelo artista até hoje.

Naquele mesmo ano de 2005, outra produção bem-sucedida: a série “Música para meus olhos”, que “propõe uma celebração visual à música e seus cantores e compositores”. Outras produções são as séries “Enredo”, lançada em 2007, que propõe explorar padrões visuais e aspectos construtivos das rendas de bilros e das redes de pesca artesanais, e “Pela Rua”, em 2009, que resultada de uma investigação visual para evidenciar as cenas urbanas e sociais. Suas obras foram destaque em dezenas de exposições individuais e coletivas e, também em mostras de arquitetura e decoração e em espaços culturais de Florianópolis.

 

Relações líquidas

“Contemplativo” ou “Forma profunda” é o projeto lançado em 2019, um exercício de síntese. “Uma busca íntima de um estado anterior de sobrevivências e referências estéticas da pintura moderna brasileira”, descreve Alexandre. Em 2020, lançou “Limiar da Fluidez” e “Elo”, produções em acrílico sobre tela. “A pesquisa atual busca explorar, utilizando como ferramenta a sobrevivência da linguagem moderna, o estado contemporâneo em suas relações líquidas e efêmeras”, explica o artista. Essa transformação na carreira contou com a orientação artística da pesquisadora, curadora, arte-educadora e artista visual Francine Goudel, Doutora em Teoria e História das Artes Visuais.

No ano em que completa 50 anos de idade, Alexandre Freire está, realmente, mais contemplativo, abstrato e anacrônico. Ele resgata a sua essência e reflete sua vivência para instigar reflexões sobre a essência do ser humano. Da série “Elo” (2020), na obra “Amor”, ele aborda princípios morais e conceitos absolutos e excludentes; em “Paixão”, conceitos da psicologia e da filosofia são referenciados para expressar o potencial dúbio de construção e desconstrução; e em “Ambivalência”, Alexandre trata da dualidade nas interações humanas e, na escolha das cores, estabelece uma analogia à “polarização política baseada em conceitos rasos e confusos de conservadorismo e liberdade”.

 

 

 

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