Sábia Inquietude

Texto Simone Bobsin

Os temas podem ser os mais variados. Urbanismo, projetos arquitetônicos, culturais, planejamento, universo acadêmico. A resposta, sempre fundamentada, vem de forma emocional. Quem escuta, e não é da área, recebe uma aula clara e objetiva; no entanto, jamais sem paixão. É esse sentimento que move o arquiteto André Schmitt, referência em arquitetura em Santa Catarina e dono de uma sábia simplicidade. Talvez resida exatamente aí sua sabedoria. O colega Giovani Bonetti ressalta esse traço. “O André se posiciona de maneira igual perante os colegas e está sempre trazendo suas sugestões para discussão na AsBEA-SC [Associação Brasileira de Escritório de Arquitetura], colocando-se sempre como coordenador e nunca como autor único de uma idéia”, diz.

Projetos integrados
Ter atuado como professor ajudou André Schmitt a moldar o perfil de valorização do coletivo e de respeito aos colegas. Seu olhar sobre a Arquitetura não é personalista. Ao contrário, junto à equipe do seu escritório, o Desenho Alternativo, instalado em Florianópolis, busca parcerias sempre que necessário. Principalmente porque encara os projetos como desafios a serem vencidos, utilizando as “armas” mais eficientes em relação à tecnologia e a equipe mais apropriada ao tipo de trabalho a ser realizado.
A maioria dos projetos assinados pelo Desenho Alternativo é de equipamentos turísticos e hoteleiros. Entre as obras já implantadas, as de maior destaque são o condomínio Canajurê Clube; o Costão do Santinho Resort – premiado pela Revista Expressão Ecologia e selecionado para a Bienal Internacional de Buenos Aires e de São Paulo –; e o Costão Golf Club, todos em Florianópolis; e o Plano de Ocupação Espacial para a Ilha João da Cunha – Etapa Pioneira –, em Portobelo. Dos que ainda estão em aprovação, destacam-se o projeto Náutico/Habitacional Porto da Barra – “Prêmio Arquitetura” na Bienal de Olinda/Recife –; o Plano de Urbanização da Praia de Taquarinhas, em Balneário de Camboriú; e o Plano Urbanístico do Pólo de Desenvolvimento Eco-Turístico-Habitacional, em Paraty, Rio de Janeiro.
Mesmo expandindo para outras cidades, é em Florianópolis que o escritório acumula mais projetos. Para André, é um desafio projetar em um município que “cerceou o setor de arquitetura e construção depois de um longo período de exploração urbana desenfreada e sem limites”. “Não existe um equilíbrio, Florianópolis está engessada”, desabafa o arquiteto, que critica o engavetamento do projeto de Urbanização do Aterro da Baía Sul, premiado com o 1º lugar no Concurso Público Nacional organizado pelo IAB/SC (Instituto de Arquitetos do Brasil) e pelo IPUF (Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis). O plano, que foi coordenado por ele, previa a reurbanização do Parque Dias Velho, onde hoje está instalado o terminal rodoviário Rita Maria, e infra-estruturas viária, náutica e paisagística.

Viagem de estudos
Formado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) em 1969, André escolheu a Ilha de Santa Catarina para morar depois de um período de residência em Itapema/SC (1972/75), quando coordenou as obras da segunda etapa de implantação do Complexo do Hotel Plaza Hering, em Blumenau, para a Rede Plaza de Hotéis. “Foi a minha formação prática, de canteiro de obra”, conta. A partir de uma viagem de estudos, em 1976, para continentes africanos, o arquiteto despertou o olhar para o fenômeno da atividade turística e para as diferentes formas de apropriação do espaço. Por outro lado, travou contato com os temas que já inquietavam o mundo: a mudança de paradigmas da questão energética, motivada pela crise internacional do petróleo dos anos 1970, e seus reflexos na arquitetura e no urbanismo.
Nessa época, fez um estágio no National Center for Alternative Technology, no País de Galles, onde foi apresentado a práticas pioneiras de tecnologias alternativas para a arquitetura. Ainda embrionárias, tais questões de sustentabilidade hoje fazem parte, de forma indissociável, das discussões dos arquitetos. “Esta viagem marcou, de forma definitiva, dois importantes aspectos incorporados à minha formação e atuação profissional: arquitetura e espaço do turismo; arquitetura e alternativas tecnológicas”, resume.

Formação continuada
No retorno a Florianópolis, André criou, em 1977, com seu ex-colega de curso de Arquitetura Antonio Aiello, o escritório Desenho Alternativo. Dois anos depois, tornou-se professor na UFSC, onde lecionou as disciplinas de Projeto Arquitetônico e de Tecnologia Alternativa no Departamento de Arquitetura e Urbanismo até 1995. “Por incrível que pareça, proferir aulas foi outro complemento na minha formação, pois me obrigou a estudar muito mais do que o tempo de faculdade”, lembra André, confirmando a importância da formação continuada do profissional arquiteto. No campo do escritório, André e seu sócio seguiram rumos diferentes. Enquanto Aiello atuava em Porto Alegre com desenho do mobiliário e equipamentos, André mantinha-se em Santa Catarina, responsabilizando-se, como titular do Desenho Alternativo, pelos projetos de arquitetura e urbanismo. Em 1979, associou-se ao uruguaio Daniel Ceres Rubio.

Atuação política e cultural
A atitude de agregar e dividir atenções e tarefas também é fruto de seu perfil político. Durante três anos (1986-1988), o arquiteto foi Secretário de Turismo, Cultura e Esporte de Florianópolis. Entre os vários projetos na área cultural, destacaram-se a criação e implantação da Fundação Franklin Cascaes e a reforma e revitalização de espaços como o vão central do Mercado Público (espaço Luiz Henrique Rosa), propostos no período de sua gestão. A atuação política estendeu-se também à frente do IAB/SC, como vice-presidente, presidente e representante do Conselho Superior.
Por conta da visão de que não há como dissociar a cidade onde se mora do que é projetado, o “André-cidadão” criou o Plano de Roteiros para passeios turísticos e Culturais da bacia hidrográfica da Lagoa da Conceição, em Florianópolis. O projeto, de 1981, foi premiado pelo IAB-SC e selecionado para apresentação no Congresso Nacional de Arquitetos, na Bahia, no mesmo ano. Seguindo esta linha, recentemente idealizou e organizou a exposição “Destaques das Bienais de Arquitetura”, realizada no Centro Integrado de Cultura, no mês de abril. “A Arquitetura tem que ser vista como uma manifestação cultural”, acredita André, que trouxe para Florianópolis, em 1995, a exposição de arquitetura do mobiliário de Lina Bo Bardi. Para o segundo semestre deste ano, André e o crítico de arquitetura e jornalista Vicente Wissenbach, estão planejando mais uma mostra para a capital catarinense, desta vez sobre a inter-relação de arquitetura e arte.

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