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As soluções arquitetônicas possíveis em prol da preservação dos recursos naturais já deixaram de ser apenas tema de debate em salas de aula e eventos técnicos e científicos. As discussões ganharam as ruas e muitas alternativas sustentáveis estão sendo colocadas em prática em projetos exemplares.
A construção, o uso e a operação das edificações estão entre os grandes consumidores dos recursos naturais. As edificações consomem, no seu ciclo de vida, aproximadamente 44% da energia elétrica produzida, dos quais 22% vão para o consumo residencial, 14% para os prédios comerciais e 8% para os públicos. Em relação ao gás carbônico (CO2), um dos gases que provoca o efeito estufa, o processo da construção civil como um todo, assim como o de fabricação dos seus principais materiais, são grandes geradores. Estes dados, apresentados pela arquiteta Maria Andréa Triana em maio, durante o encontro de arquitetura promovido pelo Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB-SC) em Lages (SC), respaldaram sua argumentação sobre a importância da transformação do método construtivo, não apenas pelo bem do planeta, mas, também, para o aprimoramento do desempenho das edificações.
Mestre em Arquitetura e pesquisadora do Laboratório de Eficiência Energética em Edificações (LabEEE) da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Maria Andréa foi além dos conceitos e apresentou aos seus colegas arquitetos algumas medidas práticas para iniciar o processo em busca da sustentabilidade. “A construção civil, de forma geral, está em evidência. E este tema tem sido foco da atenção, na atualidade. Os interesses se voltam para projetos que incorporem as três dimensões da sustentabilidade – a ambiental, a social e a econômica – e que estejam mais adaptados à realidade do local onde serão implantados”, afirma. Neste contexto, e considerando as múltiplas variáveis envolvidas, a especialista pergunta: “e qual é o papel do arquiteto?”.
“Projetos pensados em termos bioclimáticos, são indispensáveis como ponto de partida. Assim, as estratégias utilizadas nos projetos devem responder às variáveis temperatura, umidade, ventos, insolação e nível pluviométrico da região onde será implantado o projeto”, adiantou. Em relação ao desempenho térmico da edificação, diversas outras variáveis influenciam no resultado como os tipos de materiais e cores empregadas; o uso de materiais para isolamento em paredes e na cobertura; a orientação da edificação em relação à insolação; o tamanho das aberturas e o vidro especificado; a existência ou não de sombreamento; e propriedades dos materiais utilizados. “Também é importante considerar as cargas térmicas internas que variam de acordo ao uso de cada edificação”, acrescenta, lembrando que no Brasil já foram aprovadas duas normas de desempenho térmico: a NBR 15220 e, mais recentemente, a do Comitê Brasileiro de Construção Civil (Cobracon). A primeira, voltada para habitações de baixa renda, especifica o zoneamento bioclimático brasileiro e dá parâmetros para tamanho de aberturas e desempenho térmico dos materiais. Já a segunda considera parâmetros para edifícios de até cinco pavimentos.
Projetar sustentavelmente equivale a respeitar a seleção e o consumo de materiais. “O importante é escolher materiais de acordo com seus ciclos de vida e pelo impacto que causam ao meio ambiente”, ensina Maria Andréa. Ela exemplifica citando o uso da madeira, material de fonte renovável. “Para que ela tenha emprego sustentável é preciso que até mesmo os produtos finais usados para protegê-la não agridam o meio ambiente. A escolha de fornecedores ambiental e socialmente responsáveis também é importante”, complementa. “Uma escolha acertada”, reforça, “representa economia em longo prazo”. Em alguns casos, como o de projetos que especificam componentes economizadores de água para banheiro – entre eles bacias de dupla descarga, torneiras com aerador e sensor – a redução de custos é mais facilmente mensurável. “Em outros, para a especificação de um material isolante, – como lã de vidro – , ou de uma parede dupla – para regiões onde seja necessário o uso de inércia térmica como estratégia de projeto –, seria necessária uma simulação para se obter a quantidade de energia que deixou de ser usada no aquecimento”, argumenta.
Neste aspecto, a palestrante sugere o emprego da energia solar térmica, para aquecimento da água, item de eficiência comprovada no setor residencial “unifamiliar”, o que a leva sempre a indicá-lo para este tipo de projeto. “Além da economia que representa para os usuários, a energia solar também representa uma grande economia para o País, na medida em que influi na própria geração da energia”, justifica. Outras fontes de energias renováveis, como a fotovoltaica, ainda não são tão difundidas, mas, de acordo com a arquiteta, existem vários projetos em andamento que almejam ampliar essa utilização e diminuir seu custo de implantação. Importante, ainda, considerar o uso de aparelhos energeticamente eficientes, aqueles classificados como nível A pelo Inmetro (selo Procel - Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica). “No setor residencial, a geladeira e o freezer são os maiores responsáveis pelo consumo de energia. No comercial, são o ar condicionado e a iluminação”, exemplifica.
A arquiteta conta que foi aprovada no ano passado a “Regulamentação para Etiquetagem Voluntária de Nível de Eficiência Energética de Edifícios Comerciais e de Serviços e Públicos”, projeto desenvolvido pelo Procel em parceria como LabEEE/UFSC que está em período de teste. A adesão hoje se dá de forma voluntária, mas passará a ser obrigatória daqui a cinco anos. “Com ele se busca estabelecer níveis mínimos de eficiência energética das edificações desse setor, classificando-as de acordo ao seu desempenho”, explica.
Maria Andréa Triana ainda cita outros aspectos que devem ser considerados pelos arquitetos nos projetos, como a taxa de ocupação e a permeabilidade do solo. “Pode-se colaborar para a redução das ilhas de calor pela especificação de materiais adequados tanto para a pavimentação quanto para as coberturas. Deveria ser considerado o uso de teto jardim e de coberturas com baixo índice de absorvidade, o que geralmente está associada ao uso de cores claras”, ressalta. O uso eficiente da água, pode ser obtido com a especificação de equipamentos que reduzam seu consumo; a captação e reaproveitamento da água da chuva; e o reuso das águas cinzas, quando possível, são medidas fundamentais num projeto sustentável. De acordo com a especialista, ainda não existem estudos específicos no Brasil sobre o custo final de edificações sustentáveis mas, com base em pesquisas feitas em outros países, estima-se que este seja apenas 10% superior ao de construções que não respeitam esses conceitos. Entretanto, essa diferença será compensada pela redução do custo de manutenção e do consumo da edificação. “O emprego da sustentabilidade na construção civil só garante vantagens, tanto aos projetistas, como aos usuários e aos empreendedores”, enfatiza. E ao meio ambiente, é claro.
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