Nobre e raras
Elas já foram ‘madeiras de demolição’ e agora são ‘madeiras de redescobrimento’. Seja qual for o nome, saiba por que, há dez anos, elas continuam disputadas no mundo da decoração de interiores

OUTRORA ABUNDANTES, as chamadas ‘madeiras de demolição’ ou ‘de redescobrimento’, já são esporádicas no comércio de móveis de estilo colonial. A Imbuia e a Canela, árvores da família Lauraceae, e as 34 espécies de Peroba, todas da família Apocynaceae, constituíam casarios construídos por europeus e seus descendentes nos períodos de colonização do sul do Brasil. No entanto, o êxodo rural das últimas décadas do século passado resultou no abandono de muitas destas residências que acabaram por se transformar em verdadeiros tesouros de raras e nobres madeiras.
Vendidas por intermediários ou procuradas pelas próprias empresas que produzem o mobiliário resultante de seus espólios, estas casas são características de uma era em que a madeira de boa qualidade era extraída da natureza e explorada sem restrições.
Diferentemente das opções novas, o tempo age sobre a madeira de demolição funcionando como uma estufa natural, o que impede a retração ou o empenamento. Utilizada de várias formas, a madeira de demolição é recuperada dessas antigas edificações para transformar-se em mesas, bancos e aparadores. O processo de recuperação é demorado pois, além de garimpar as melhores tábuas, é preciso arrancar delas os pregos e cortar suas partes danificadas. Com isso, a perda é grande e a mão-de-obra onerosa.
Apesar da riqueza do casario existente nas áreas rurais dos estados do Sul do País, a movelaria colonial brasileira está plenamente identificada com Minas Gerais. Filho de uma mineira, o empresário Fernando Campos, apaixonado pela madeira de redescobrimento, afirma que o estado natal de sua mãe não tem o mesmo padrão florestal catarinense ou paranaense. No entanto, seu estilo peculiar de vida rural e a presença da cultura caipira na formação de seu povo, deu origem a uma indústria moveleira colonial bastante típica. “Minas é a origem do que conhecemos como móvel colonial, mas a produção mobiliária oriunda de lá simula o envelhecimento que aqui no Sul é natural, principalmente no caso da Canela (ou Caneleiras)”, explica Fernando, proprietário da Pau Canela, de Florianópolis, que produz e vende móveis fabricados a partir da madeira de redescobrimento.
Independente de eventuais polêmicas sobre a origem das madeiras mais nobres usadas pela arquitetura de interiores, Fernando avalia que dificilmente este tipo de produto natural perderá seu vigor comercial. “O que vai acontecer é que, paulatinamente, ficará mais difícil encontrar madeiras originais e de qualidade. Há muita coisa forjada e as pessoas não têm como se defender dos embustes”, considera.

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Madeiras são largamente utilizadas na produção de móveis dos mais diferentes estilos. Na primeira foto, um modelo contemporâneo produzido pela designer Michela Damascena. As demais são peças oferecidas pela Bicho Carpinteiro, de Florianópolis